Quem quiser saber sobre a história da arte nestes últimos 50 anos vai ter de recorrer a livros especializados, catálogos, ver filmes e fotos, porque muitas das obras realizadas não duraram mais que o tempo que levaram para serem documentadas. Estamos falando de performances, happenings e ações em que o próprio corpo do artista é o objeto de arte, chamados de body art.
Aqui se vê uma galeria de situacões limites, das mais delicadas às mais assustadoras. São corpos de pessoas que se deixam dilacerar, para mostrá-los como se fossem um bife no açougue, expostos como material exótico que se pudesse comprar e levar para casa, mas que, de tão abjetas, nossa única reação é perguntar se, afinal, essas coisas são consideradas arte também.
Para começar, devemos antes perguntar o significado da palavra arte e seu status hoje na sociedade. Será que ela é capaz de dar conta de todas as manifestações que fogem aos rótulos das convenções estabelecidas?
Sujeito que corta o pênis em ritual de sadomasoquismo, fazendo uma performance chamada Hot Dog em que come o próprio membro, quer dizer o quê? Ou um outro que decepa seu braço para denunciar a relação mal resolvida com o pai, certamente não está preocupado com o nome que se possa dar à sua atitude. Mas o fato é que elas fazem sentido dentro da história recente da arte. Arte? Mas que outro nome dar a isto que abandonou a idéia de beleza e perfeição segundo um modelo de representação da natureza, para falar de um mundo cujo significado estamos constantemente construindo? Aliás, o termo arte é uma invenção que a burguesia criou para destruir a si mesma, como um vírus que ataca o sistema imunológico de um corpo.
Se, por um lado, esses artistas veêm o uso de seus corpos, como se fosse mais um objeto a ser transformado, mais uma parte da natureza a ser modificada - como uma árvore transformada em mesa, armário ou papel -, por outro lado, há uma imersão nos sentidos da existência que radicaliza o embate entre arte e vida, matéria e ação.
Foi com Jackson Pollock (fim dos anos 40, começo dos 50) que o suporte da pintura deixou a parede para ir ao chão, horizontalmente, agora como um mergulho e não mais como reflexão. A partir daí o processo do corpo em movimento no espaço passa a ser mais importante que o resultado formal em si, o objeto artístico. E a continuidade desta proposta não tardou a acontecer. No Japão, por volta de 1955, um grupo de artistas desferia contra a pintura verdadeiros golpes ‘‘ágeis, diretos e espontâneos’’ de luta marcial sobre a superfície da tela, promovendo um verdadeiro combate contra a idéia padronizada de arte.
Daí para os happenings, performances, bodies arts foi um pulo. Um pulo entre a vida e a morte que nem sempre favoreceu a integridade física do artista, que oferecia seu corpo à transgressão, desafiando limites e convenções. Fazendo do corpo não só lugar da obra, mas lugar onde também se dá o mundo, modificando-o e por ele sendo modificado. O corpo como suporte da obra, campo vasto para as pesquisas sensoriais, onde as metáforas de tensão e resistência são adequadas, onde o desejo se faz presença. Afinal, é esta a condição de uma obra de arte.
A sobra residual desses trabalhos normalmente é em forma de documentos, mas sua força de produzir sentidos transcende o próprio corpo da obra, transcende o próprio corpo do artista, vindo se instalar, definitivamente, não só no imaginário de cada um, mas em nossa maneira de agir e pensar sobre nós mesmos, como em um mergulho.
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