O CORPO COMO EXPRESSÃO DA ALMA
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de janeiro de 2001
Rodrigo Souza Grota De Londrina Especial para a Folha2 
Ela é bailarina, atriz e professora. Já integrou inúmeras companhias de teatro e de dança em quase uma década passada em solo europeu. Participou de projetos até no cinema, e não esconde a sua fascinação pela arte do movimento corporal, que, segundo ela, se trata de uma manifestação simbólica do ser humano. Eis a londrinense Margarida Morini, 34 anos, que passou oito anos no País de Gales e acaba de retornar à sua terra natal.
Margarida começou a estudar balé clássico no Adanac (Centro de Danças e Arte) em 1975, aos nove anos, motivada por uma paixão incontrolável: Eu simplesmente queria dançar. Nunca tinha visto balé ou alguma apresentação, eu simplesmente queria. Aos 13, teve de parar por 3 anos devido a problemas articulares, só voltando aos palcos para estudar na Escola de Danças Clássicas Guaíra Norte, uma extensão da escola curitibana que posteriormente se transformou em Oficina de Dança e finalmente em Escola Municipal de Dança.
Em 1986, iniciou o curso de Dança da Universidade de Campinas (Unicamp), onde atualmente finaliza seu mestrado, já com data marcada para defender tese: 23 de fevereiro próximo. Em 1992, a grande mudança: ao participar de uma das oficinas do Festival Internacional de Londrina (Filo), Margarida foi convidada a integrar por três meses um projeto coordenado pelo Inicial Center for Perfomance Research em parceria com o grupo galês Practice.
Logo foi se adaptando aos costumes galeses (muito mais ligados à tradição céltica do que à britânica) e passou a participar de projetos elaborados por uma organização cultural sem fins lucrativos, a South Wales Intercultural Communitty Arts. Nesta organização, em que Margarida integrava projetos que levavam a dança para escolas de primeiro grau, a bailarina permaneceu por todos os oito anos em que residiu em Cardiff, capital do País de Gales.
Margarida, apaixonada pela propostas vanguardistas da alemã Pina Bausch e da americana Meredith Monk, foi desenvolvendo projetos paralelos como a sua atuação junto à companhia Earthfall (em português, algo como caída na terra), em que permaneceu por oito anos.
Simultaneamente a estes trabalhos, ela fundou sua própria companhia: Caminhos Dance Theatre, que ainda existe e em breve poderá ser conhecida pelos londrinenses quando as idéias de Margarida se concretizarem. Ela pretende apresentar o espetáculo Women of the Sea (sem título em português) no próximo dia 10 de março no palco intimista do Núcleo I: Pretendo apresentar um work in progress (trabalho de improviso) com alguns bailarinos. Mas nada está muito certo, preciso encontar patrocinadores antecipa. A peça será um mergulho no universo mitológico em contraste com a realidade urbana de hoje, direcionando enfoque especial ao mito de Iemanjá.
Durante esses oito anos em que Margarida se fixou em Cardiff, ela viajou por todo o velho continente e teve um aprendizado único: Você acaba percebendo que o humano é o mesmo em qualquer lugar. É como meu pai costumava dizer - esse negócio de primeiro, terceiro mundo é balela, existem pessoas de primeiro e terceiro mundo em todos os lugares.
Entre os espetáculos que apresentou na Europa, destacam-se Passages (em português, passagens), Limits (limites), Travelers (viajantes) e Home is elsewhere (casa é em qualquer lugar).
Uma das inúmeras atividades artísticas em que Margarida incursou foi o cinema. Como no curso de Dança da Unicamp constam disciplinas ligadas à arte dramática, a bailarina não se amendrontou quando abriram as inscrições para os testes realizadas a fim de compor o elenco da co-produção anglo-americana O Outro Lado da Nobreza (Restoration, 1995), película dirigida pelo ótimo Michael Hoffman e premiada com os Oscar de figurino e direção de arte.
Margarida passou nos testes e atuou junto a Meg Ryan e Robert Downey Jr., o casal protagonista, em uma cena marcada pela violência emocional da personagem enlouquecida de Ryan e por um breve close em Margarida.
A bailarina adorou a participação que durou cerca de quinze dias: Hoffman é um ótimo diretor. Ele era muito bem humorado, não se estressava com nada. relembra Margarida, que já tinha participado de um filme anteriormente. Ela coordenou a coreografia de um curta realizado para BBC: Eu dirigi os movimentos dos atores, enquanto outra diretora coordenava os movimentos de câmera.
Margarida não sabe se irá ficar no Brasil ou até mesmo em Londrina: Está tudo indefinido. Mas há uma pretensão em ficar por um certo tempo: Este ano lecionei duas disciplinas (Expressão Corporal e Jogos Dramáticos) no curso de Artes Cênicas na UEL. Agora estou prestando concurso para ser contratada em definitivo avisa a dançarina que também dá aulas na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e deve finalizar o mestrado na Unicamp em breve.
Margarida se revela encantada com o corpo humano: Se não fosse o nosso corpo não seria permitido a percepção do outro. O repórter pergunta se ela estaria falando em uma física que permite a metafísica: Sim, isso mesmo. Influenciada principalmente por correntes de vanguarda, como a de Bausch, Monk, do teatro físico e do teatro Butô, ela prefere entender o movimento como uma busca pelo inconsciente: O Butô nega toda tradição nipônica, questionando inclusive a recente americanização do pós-guerra. Além disso, há um movimento que irrompe de dentro para fora, uma improvisação por contato explica Margarida, que participou de um workshop com Tetsuro Fukuhara.
Margarida crê mais do que ninguém que o corpo não é só expressão física, é uma textura que expressa a alma.


