Mensageira da alegria, como ela se autodefine, Elba Ramalho está lançando seu 31º CD, Vambora Lá Dançar. Os ritmos nordestinos que sempre pautaram a carreira da cantora estão presentes no novo trabalho. Já o canto agreste e os agudos estridentes do princípio de carreira foram domados pela paraibana que aos 61 anos aposta em interpretações mais suaves, explorando os tons médios e graves de sua voz potente e afinada.
O novo disco conta com 14 faixas, oito delas produzidas pelo sanfoneiro Cezinha e as outras seis pelo músico Zé Américo Bastos. Os arranjos intercalam timbres eletrônicos e acústicos sem perder a verve dançante que é a espinha dorsal do CD. A cantora se divide entre vigorosos forrós, xotes e maracatu que remetem aos bons álbuns lançados por ela nas décadas de 70 e 80 e baladas com bases eletrônicas, numa tentativa bem sucedida de dar um ar contemporâneo ao seu trabalho.
As canções inéditas dividem espaço com algumas regravações. Elba dá novas versões a duas músicas gravadas por Gal Costa no disco Bossa Tropical, lançado em 2002. A paraibana acrescentou à balada "Quando Eu Fecho os Olhos" nuances que valorizam a bela letra escrita por Chico César. Por outro lado, a canção "Onde Deus Possa me Ouvir" ganha leveza ao ser transformada em xote pouco condizente com a profundidade do tema existencialista composto pelo mineiro Vander Lee que ganhou na voz de Gal sua versão definitiva. Sem temer comparações, Elba exibe sua maturidade vocal na música "Mucuripe", composta por Fagner e imortalizada por Elis Regina.
Depois de ganhar dois Grammy Latino com o inovador CD "Qual o Assunto Que Mais lhe Interessa" (2007) e com o festivo "Balaio de Amor" (2009), Elba mostra que apesar de seguir uma receita já bastante explorada por ela em trabalhos anteriores ainda tem fôlego para continuar atuando como porta-voz da alegria, da poesia e dos animados ritmos nordestinos.
Em entrevista à FOLHA por e-mail, Elba Ramalho fala sobre o novo CD e seus novos projetos artísticos.

Como você define seu o CD "Vambora lá dançar"?
É um disco bem diversificado. A produção aconteceu em duas etapas distintas. A primeira parte eu já havia gravado há algum tempo com a produção do jovem sanfoneiro Cézinha. A segunda parte foi produzida pelo maestro Zé Américo, um velho parceiro musical de vários discos. Definir o disco é difícil, mas estou orgulhosa do resultado. As raízes sempre serão nordestinas, mas a sonoridade é contemporânea.

Quais sãos as novidades deste trabalho?
Talvez a reunião de compositores de diversas gerações e de diversas regiões do país. Eu trabalho com música popular brasileira e acho que o disco expressa bem este panorama de um Brasil que é imenso e nos apresenta uma variedade imensa. Chico César da Paraíba, Wander Lee de Minas, a carioca Monique Kessous, o maranhense Sérgio Sá, e os consagrados Antônio Barros, Fagner, Dominguinhos e Nando Cordel.

Vai sair em turnê pelo país?
O meu ritmo de trabalho é sempre muito intenso. Estamos começando por São Paulo, a intenção é levar o show para o máximo de cidades do país. Em junho e julho, fazemos a nossa tradicional turnê nordestina, de São João. Em agosto vou retomar os shows do disco.

Nas décadas de 70 e 80 os artistas nordestinos enfrentaram muito preconceito para conseguir mostrar sua arte para o resto do país. Acha que atualmente a música nordestina tem o destaque que merece?
Acredito que sim. Recentemente participei de um programa de TV, o Som Brasil, que o título era "Nordeste Anos 80". Fagner, Belchior, Zé Ramalho, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, Amelinha, Ednardo são artistas consagrados.

Costuma ouvir seus trabalhos antigos? De quais deles mais gosta?
Não ouço com muita frequência, mas vez em quando alguém me mostra alguma gravação antiga e acabo ouvindo o disco inteiro. Recentemente ouvi o disco "Devora-me" e a sonoridade é excelente. O álbum de 20 anos de carreira tem registros fantásticos. Também gosto muito do "Qual assunto que mais lhe interessa?".

Você e outras cantoras de sua geração já foram estrelas de grandes gravadoras multinacionais e hoje gravam discos independentes. Quais são os pontos positivos e negativos dessa mudança?
Tudo mudou. O mercado mudou, a tecnologia mudou e as gravadoras não estavam preparadas para esta mudança. E o resultado é este que temos hoje em dia. De positivo, o acesso e popularização da música. Hoje me dia você pode gravar um disco em casa e colocar na internet para o mundo inteiro ouvir. Antigamente você só iria gravar se fosse contratada por um gravadora. O aspecto negativo é inexistência das lojas que vendem discos/CDs. Muitos jovens, hoje em dia, nunca compraram um CD.

Como você avalia o atual panorama musical brasileiro?
Com cautela. A boa produção está firme e forte. Acho que o espaço existe para todos os segmentos, mas é uma pena que as rádios populares só estejam tocando os gêneros extremamente populares.

O que tem ouvido ultimamente?
Tenho ouvido Dolores Duran, o disco novo da Gal, Beatles e o disco da Thaís Gulin.

Quais cantoras da nova geração você admira?
Gosto muito da Thaís Gulin, Roberta Sá, Mariana Aydar, Vanessa da Matta.

Há alguns anos você comentou que tinha vontade de gravar songbooks em homenagem a Chico Buarque e Zé Ramalho. Existe previsão de quando essas produções serão realizadas?
A vontade permanece, mas acho que estes projetos precisam de uma dedicação imensa. Precisam ser projetos ousados e grandiosos. Não tenho puma previsão ainda.

Quais são seus próximos projetos artísticos?
Tenho muitas ideias, boas sugestões dos amigos, mas acho que seria precipitado dizer alguma coisa agora. Posso adiantar que estou inclinada a fazer um trabalho com os clássicos do frevo.

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