É impossível ler ‘Janela Indiscreta’, de Cornell Woolrich, de maneira neutra. Isso porque o conto, que encabeça uma coletânea do autor, transformou-se num dos grandes filmes do mestre Alfred Hitchcock. Ninguém há de esquecer o personagem de James Stewart, imobilizado diante de sua janela, bisbilhotando a vida alheia como forma de matar o tempo.
  Assim, quando lemos o conto, de 40 e poucas páginas, imaginamos quanto de talento e criatividade foram necessários para transformar em imagens essa história de suspense baseada em apenas um ponto de vista - o do homem imobilizado que contempla seus vizinhos até descobrir, ou suspeitar, que um terrível crime acaba de ser cometido diante dos seus olhos.
  Por sorte, dispomos de um notável documento, a longa entrevista que Hitchcock concedeu a François Truffaut, examinando sua obra filme a filme. Na entrevista, ao iniciar o papo sobre ‘‘Janela Indiscreta’’, Truffaut confessa que não conseguiu encontrar o conto de Woolrich para ler. Refere-se a ele como ‘‘o livro que lhe forneceu o enredo’’. O próprio Hitchcock parece não se lembrar, em detalhes, da história original.
  Truffaut pergunta também se não foi o desafio que moveu Hitchcock a adaptar uma história de um único ponto de vista, filmado praticamente no cenário reduzido de um quarto que se abre para um pátio e os apartamentos em frente. Hitchcock admite que assim poderia fazer um ‘‘filme puramente cinematográfico’’. Um homem imóvel que olha para fora e observa o que acontece. ‘‘Você tem o homem imóvel que olha para fora... É o primeiro pedaço do filme. O segundo pedaço mostra o que ele vê e o terceiro mostra a reação dele. Isso representa o que conhecemos como a mais pura expressão da idéia cinematográfica.’’
  Assim, o filme se passa entre o que a câmera mostra, do ponto de vista de Stewart, e a reação no rosto do personagem. Essa dualidade entre visão e reação que compõe o ato voyeurista. A pulsão do olhar, que é também uma definição possível do cinema. Por isso, Janela Indiscreta é um dos filmes preferidos dos cinéfilos, cineastas... e psicanalistas.
  Ah, sim. Na novela de Woolrich apenas na última linha ficamos sabendo que a imobilidade do personagem se deve a uma perna engessada. Fato que a literatura podia esconder, mas o cinema não. E outra coisa, talvez não de todo inútil de lembrar. O próprio Truffaut, nas pegadas do mestre, se inspiraria em outra história de Woolrich para fazer seu próprio filme de suspense, ‘‘A Noiva Estava de Preto’’, de 1967.

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