Chico Anysio não sabe mesmo ficar parado. Há quase cinco anos, quando quebrou o maxilar na piscina de sua casa, o humorista aproveitou para tentar a vida de roteirista em Hollywood. Em novembro do ano passado, quando foi suspenso pela Globo por indisciplina, resolveu finalizar ''O Canalha'', romance que refaz a trajetória política brasileira, desde o final do primeiro governo de Getúlio Vargas até o de Fernando Henrique. O livro é narrado por Genival de Souza, o tal canalha do título. Membro influente de todos os governos entre 1945 e 2001, foi ele quem deu um revólver de presente para Getúlio, sugeriu que Jânio renunciasse à presidência e aconselhou Zélia Cardoso a confiscar o dinheiro da poupança, entre outras velhacarias. ''O Genival é figura onipresente no Brasil. Apesar dos pesares, ele talvez ainda tenha mais caráter do que muitos que estão por aí'', atiça.
A idéia de criar um personagem fictício que contracena com figuras históricas é antiga. Segundo o humorista, toda e qualquer semelhança com Forrest Gump é mera coincidência. ''Para ser sincero, nem lembro direito do filme'', esquiva-se. Chico garante que a idéia surgiu depois de ler ''O Videota'', que deu origem ao filme ''Muito Além do Jardim'', dirigido por Hal Ashby e estrelado por Peter Sellers. No livro de Jerzy Kosinsky, o protagonista era um sujeito pacato que falava bobagens que soavam como pérolas de sabedoria. Já Genival só semeia cizânia por pura maldade.
Fora o vil protagonista, todos os demais personagens são reais. Chico escreveu os dois últimos capítulos quando o livro já estava no prelo. Por isso, conseguiu incluir a tragédia de 11 de setembro, quando ataques terroristas mataram milhares de pessoas nos Estados Unidos. Bem-humorado, Chico avisa que Genival foi visto no aeroporto de Boston, vestido de piloto, num avião da American Airlines. Brincadeiras à parte, ele levou quatro anos pesquisando nomes e datas. ''Não queria um erro sequer'', enfatiza.
Tanto cuidado tem razão de ser. Chico adoraria que o livro fosse adotado em escolas públicas. ''Os livros didáticos são muito chatos. Além do mais, todas as vezes que ensinei algo para meus filhos de maneira engraçada eles não esqueceram mais'', garante. O próprio Chico sempre gostou de História. Quando estudava na pequena Maranguape, no interior do Ceará, só tirava dez. ''Cheguei a pensar em ser professor'', lembra.
Mas o destino quis que Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho fosse humorista. E escritor também. ''O Canalha'' é o seu 17º livro. O primeiro deles, ''O Batizado da Vaca'', foi lançado em 1972, entre um programa e outro de televisão. ''A literatura é a única coisa que deixo para a posteridade. O resto vai sumir'', acredita, referindo-se aos 210 personagens que criou em 50 anos de carreira. Com tantos livros publicados, Chico já chegou a ser sondado para ingressar na ABL. No começo, não sabia se pleiteava ou não uma vaga entre os imortais. Mas uma recente conversa com um deles, João Ubaldo, o fez desistir da idéia. ''Ele falou o que todo mundo desconfia. Que a ABL só dá dor de cabeça'', entrega.
O convite para virar acadêmico não foi o único que Chico andou recebendo. Volta e meia, ele é convidado também para ingressar na política. ''Não quero passar de pedra à vidraça'', refuta. Nas últimas eleições para prefeito do Rio de Janeiro, o Ibope resolveu incluir o nome do humorista nas pesquisas de intenção de voto. ''Tive 76% dos votos. Se fosse de verdade, já estaria eleito'', gaba-se. Por essas e outras, Chico Anysio não se diz muito otimista quanto ao futuro do país. ''O Brasil é o país mais rico do mundo. Aqui, as pessoas só roubam milhões'', ironiza.
O ceticismo de Chico não se restringe à classe política. Ele também não parece muito satisfeito com sua atual fase na Globo. Atualmente, Chico interpreta apenas o Professor Raimundo de segunda a sexta e Alberto Roberto nas noites de sábado. Muito pouco para quem se habituou a dar vida a 40 tipos por semana. ''A Globo pensa que já dei o que tinha de dar. No Brasil, só dois entendem tanto de humor quanto eu: o Max Nunes e o Jô. Não conheço mais ninguém'', enfatiza.

mockup