"O Cônsul" é destaque no novo disco de Gian Carlo Menotti
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terça-feira, 12 de outubro de 1999
Por Carlos Haag 
São Paulo, 13 (AE) - Dizem os engraçadinhos que "Carmen", de Bizet, é a ópera de quem não gosta de ópera. Difícil discordar, mas você, que odeia (a dica, paradoxalmente, vale para os que idolatram o gênero) ouvir gente berrando histórias estúpidas, tem uma outra chance - e, pasme, contemporânea - de se encantar pelo canto lírico: as óperas de Gian Carlo Menotti, em especial, "O Cônsul" (2 CDs, Chandos CHAN 9706-2, à venda na Fnac), com a Spoletto Festival Orchestra
regida por Richard Hickox.
O compositor italiano, nascido em 1911 e ainda na ativa, é um incansável defensor da expansão do público operístico, já tendo escrito obras para a Broadway, o rádio, o cinema e a televisão. Com sucesso. O segredo é ser moderno sem abrir mão da emoção e conseguir com que o público assista a uma ópera sem se dar conta. Para tanto, explora todos os meios a seu alcance, reunindo dança, canto, falas, barulhos, seja o que for, envolvendo o todo numa roupagem musical melodiosa. "La Bohme"
de Puccini, afirma o compositor, é o seu grande ideal, pois é, musical e dramaticamente, humana, emocional e crível.
Em "O Cônsul" (gravado ao vivo, ano passado em Spoletto, na Itália, onde Menotti dirige um festival anual fundado por ele), o tema - o libreto é de Menotti - é atualíssimo e poderia também ser uma versão lírica de "Casablanca", sem as tiradas de Rick. Em uma país dominado por uma ditadura, uma mulher (Magda Sorel) espera, em desespero, para ver o cônsul e conseguir um visto de saída para seu marido, John, um revolucionário perseguido pela polícia. Uma secretária execrável barra sempre o seu caminho (pontuando a ação com sua máquina de escrever) até o cônsul (figura que, sintomaticamente, não se vê em cena) e, por fim, ao saber que John fora preso, Magda se mata.
Bem, isso deve estar ocorrendo em algum lugar do globo neste momento, uma denúncia composta em 1950, em meio ao caos de refugiados do pós-guerra que ainda vale como crítica ácida à hipocrisia das democracias, com seu discurso liberal e suas políticas covardes. Nem precisa falar em Sérvia ou Timor Leste. É curioso ouvir "O Cônsul", pois, em alguns compassos, esquecemos que é uma ópera e estamos dentro de sua história, com a música ao fundo aparecendo da forma mais natural possível, talvez em função do cinema que nos acostumou mal ao drama com trilha sonora.
Menotti escreveu melodias nervosas, curtas, intensas, plenas de frases cortantes como diálogos reais, uma rotina apenas quebrada nos momentos em que os personagens abrem suas almas e a orquestra domina. Verismo da Broadway, como dizem alguns, é uma excelente definição de seu estilo. Nesta versão, muito boa, com Hickox, o melhor é ouvir Susan Bullock como Magda
uma voz nem sempre bela, mas profundamente teatral. Vale lembrar que, como é comum nas óperas de Menotti, é sempre uma mulher a conduzir a trama e a espelhar a verdade da história.
Louis Otey é um John espetacular, na medida para um rebelde que se vê roubado da ação e não cede. É a vida como ela é. "A arte já foi funcional um dia, hoje, o artista desligou-se da vida, vive em um limbo", diz o compositor que, aos 88 anos, tem planos de terminar um sonho de 30 anos: uma ópera sobre Pitágoras. Sem vergonha de ser acessível, Menotti acredita que um músico deve ser parte de uma comunidade, estar próximo dos homens e, com sua arte, fazê-los pensar a realidade. "O Cônsul" é uma introdução a esse universo. Afinal, como escreveu um crítico americano, "longe de um operão antiquado, é atual como uma sessão da ONU e urgente como a luta pela vida no mundo de agora". Você não vai arrepender-se e, quem sabe, até vai ouvir "Carmen".


