Todos querem se destacar, ser diferentes dos outros; você é o contrário: quer ser como todo mundo. Esse é um dos diálogos-chave de ''O Conformista'', filme que Bernardo Bertolucci adaptou do romance homônimo de Alberto Moravia. Ela é dita por um amigo ao personagem principal, Marcello Clerici (Jean Louis Trintignant). O amigo ficara surpreso ao receber a resposta de Clerici sobre o motivo do seu casamento com uma moça bastante banal (a não ser do ponto de vista físico), Giulia (Stefania Sandrelli): ''Ela me dá uma idéia de normalidade'', diz Clerici, ''de ser como todos os outros.''
Clerici quer se casar, e aspira também a tornar-se membro do Partido Fascista - o que é a maneira mais acabada de ''ser como todo mundo'' naquela época. E, para fazer-se confiável aos olhos do partido, ele tomará parte de um plano sinistro - ir a Paris, encontrar e, talvez, eliminar um dissidente que, não por acaso, havia sido seu professor na faculdade.
Clerici é descrito, analisado e dissecado, como o protótipo do ''homem comum'', no espírito do ''qualunquismo'' italiano, isto é, desconfiado dos outros e da política, isolado e facilmente manipulável. Um conformado, em suma. E como esse conformista, homem do medo e da obediência, que deseja desaparecer no anonimato, se presta a qualquer ato, mesmo um crime ignóbil em nome de um regime que, no fundo, nada significa para ele?
O que ''O Conformista'' (Lume Filmes, R$ 44,90) sugere é que o problema não é o líder fascista, nem os verdadeiros fascistas que a ele aderem, mas os que o fazem por medo, indiferença, fraqueza ou simplesmente porque fazem parte da massa amorfa, bovina, que se move para onde vai o rebanho. Inútil dizer que se trata de uma reflexão política mais atual do que nunca.

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