O cometa se despede, a Ciência comemora descobertas
O cometa se despede, a Ciência comemora descobertas
Na região de Londrina, o cometa Hale-Bopp brilhou intensamente no dia 9 de maio, considerado o melhor dia para sua observação. Daqui para a frente, ele vai desaparecendo aos poucos, podendo ainda ser visto até o começo de junho, no início da noite, e em julho, no final da madrugada. Ele só retorna daqui a 2.380 anos, segundo os cálculos dos astronônomos. Desta sua passagem, fica a lembrança da visão luminosa que animou as noites de milhares de observadores com telescópios, lunetas e binóculos nas mãos, prontos para ver o fenômeno que sempre encantou a Humanidade. Para os cientistas, o fato ganha outra dimensão. Os institutos de pesquisa já começam a divulgar os dados colhidos durante a passagem do Hale-Bopp. Em entrevista à Folha Ciência, a astrônoma Ruth Helena Trevisan, formada pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), docente da Universidade Estadual de Londrina, fala sobre as novidades que envolvem a observação do cometa.
Entrevista a Célia Musilli
Foto: Jorge Santos/UELFoto do cometa Hale-Bopp feita na região de Londrina: brilho além do esperadoO que os institutos de pesquisa têm divulgado em relação ao Hale-Bopp?
Nas observações descobriu-se que o Hale-Bopp emite jatos de matéria, tem o núcleo girando e possui várias espécies de moléculas que não existiam no Halley, o cometa mais estudado até hoje. No núcleo do Hale-Bopp ainda foram descobertas várias moléculas que são uma novidade. São moléculas orgânicas, nunca antes observadas, e isto reforça a teoria de que a vida na Terra pode ter sido plantada pelos cometas, através dos aminoácidos. Também foi descoberto um metal, chamado olivina, no núcleo do Hale-Bopp. Este metal só se forma em altíssimas temperaturas. Como a temperatura do núcleo deste cometa é de - 200º Celsius fica a pergunta: Como este metal se formou? Isto também reforça a teoria de que o Sistema Solar pode ter se originado nos restos de outros sistemas.
Por que os cientistas têm tanto interesse em observar os cometas?
Por serem formados dos restos de nuvens de gás que também formaram o Sistema Solar, os cometas são objetos de estudos que ajudam a entender a origem e a evolução do nosso sistema. Os cometas podem ser considerados fósseis do Sistema Solar e estão cheios de informações. Ao contrário dos planetas e asteróides, que passaram por um processo de resfriamento, os cometas possívelmente mantiveram-se inalterados desde a sua formação. Esta teoria é possível e estimulante. Se soubermos exatamente a sua composição, poderemos saber como e quanto o Sistema Solar mudou desde a sua origem.
Hoje, os institutos de pesquisa estão mais bem equipados do que em qualquer época da História. Podemos ficar sabendo, desta vez, o que nunca soubemos a respeito dos cometas?
Arquivo/FolhaRuth Helena Trevisan:Estudo dos cometas ajuda a entender formação do sistema solar
Os equipamentos disponíveis podem nos dar informações inéditas. Hoje, temos detectores eletrônicos integrados a computadores, que varrem uma faixa maior de comprimentos de onda. O Halley foi o cometa mais estudado da História porque uma sonda, a Giotto, literalmente o atravessou em 1986. Usando a luz proveniente do cometa, pode-se fazer estudos da sua composição físico-química. Para isso usam-se espectômetros, instrumentos que separam a luz em seus distintos comprimentos de onda. Conforme a composição química ou temperatura do cometa, ele emite radiação (luz) em diferentes comprimentos de onda. Ao se conhecer as substâncias químicas do cometa, pode-se saber se elas são idênticas a da nuvem interestelar de partículas que precedeu o Sistema Solar ou parecida com a região da nebulosa solar da qual depois se formaram os planetas. Os cientistas querem medir as quantidades de carbono, hidrogênio e oxigênio do Hale-Bopp e fazer comparações com as quantidades destes elementos existentes na vida humana e outras formas de vida na Terra.
As passagens dos cometas sempre são tratadas como um fenômeno perigoso pelos leigos. Quais os perigos reais que eles oferecem?
Veja bem, se um cometa estiver em rota de colisão com a Terra, isto realmente pode se constituir numa catástrofe. Há uma suposição de que os dinossauros foram exterminados na Terra por um acontecimento destes. O cometa que teria se chocado com nosso planeta, causando a grande catástrofe, tinha cerca de 15 quilômetros de diâmetro, o Hale-Bopp tem 40 quilômetros. Um choque com a Terra seria realmente fatal. Mas este não é o caso. O que pode assustar os leigos, no caso do Hale-Bopp, é que na composição de sua cauda há cerca de um quilo de ácido cianídrico - o mesmo usado nas câmaras de gás - que vai se desprendendo na sua passagem. Só que os resíduos deste ácido desprendido pelo Halle-Bopp divididos entre os 6 bilhões de habitantes da Terra, resumem-se a uma quantia ínfima. Em resumo, não dá para matar. Isto só seria fatal para a Humanidade, se o cometa desprendesse cerca de 2 miligramas de ácido cianídrico para cada habitante, o que está longe da realidade. Além do mais, a cauda do Hale-Bopp não atingiu e nem atingirá a Terra.
Até quando o Halle-Bopp ficará visível em nossa região?
Até o começo de junho ele ainda poderá ser visto no início da noite entre às 18h45 e 19h30, no poente. Ele já está perdendo o brilho e desde o último dia 15 começou a descer no horizonte. Mas poderá ser visto até julho, só que em outro horário, no final da madrugada, em torno das 5 horas.





