O colapso do nosso mundo
O cientista David Attenborough ponta de forma sombria para o problema das mudanças climáticas em filme da Netflix
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 12 de novembro de 2020
O cientista David Attenborough ponta de forma sombria para o problema das mudanças climáticas em filme da Netflix
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
A critica da coluna de hoje seria para a recém-estreada e já vulgarizada (com justiça, porque é mesmo muito boa) minissérie “O Gambito da Rainha”. Mas antes de escrever, resolvi dar uma espiada na seção de documentários do streaming. E então a ficha da prioridade absoluta caiu com a força do arrependimento pelos vários meses de atraso para um registro necessário e obrigatório, já que a estreia do longa metragem foi há seis meses. Dívida que, modestamente, diante da dimensão e da gravidade da proposta, tento resgatar agora nessas mal traçadas mas bem intencionadas linhas. Em outra medida, longe da ficção, a complexidade do xadrez de “Gambito” também se encontra em “Uma Vida em Nosso Planeta”.
Aos 94, o cientista, cineasta e divulgador David Attenborough viu de tudo nesse planeta. Até a última década, com séries como “Planeta Terra” e “Planeta Azul”, ele espalhou seu espanto pelo mundo natural para gente de todas as idades. Mais recentemente, sua voz telúrica tornou-se sombria, enquanto ele investiga os fatos da mudança climática e a sexta extinção em massa dos seres vivos, o outros e nós. O venerando naturalista inglês é uma vez mais o guia e mentor, apresentando uma espécie de “testamento” definitivo via Netflix (depois de longa trajetória de 70 anos de vida profissional a serviço da BBC), validando o afastamento do mundo natural e o avanço implacável da espécie humana.
Se o paraíso na Terra foi o período do Holoceno, agora, segundo um grupo de geólogos, estamos no Antropoceno. E Attenborough adota este conceito: “Todos os animais modificam seu ambiente em maior ou menor grau. Mas nenhuma espécie jamais fez o que estamos fazendo. Ao alterar o planeta, nós o estamos destruindo” .
A questão, para ele – e deve ser para nós também – “não é mais salvar o planeta, mas salvar a nós mesmos”. E o grande problema não é só a crise climática, mas também a perda da biodiversidade causada pela destruição do ecossistema”. Vale dizer que nosso futuro não mudará se não mudarmos nossa relação com os animais.
Irmão mais novo do falecido ator e diretor Richard Attenborough (“Gandhi”), David é um velho charmoso, apresentador brilhante e ativista comprometido que em sua filmografia explora os principais problemas e desafios que a humanidade enfrenta. Talvez – para os iniciados na área – o documentário não ofereça nada de muito novo; mas sua obra impecável e seu bem-vindo sentido didático fazem dele um ensaio tão valioso quanto fascinante, um alerta implacável e um apelo à consciência social.
O discurso-mensagem é direto e conciso. O desastre ambiental que estamos enfrentando pode ser consertado, mas requer mudanças e sacrifícios que devemos estar dispostos a fazer. Attenborough nos informa que podemos aprender a trabalhar com a natureza e não contra ele, se fizermos as coisas necessárias para isso. Mas neste momento as coisas estão muito mal paradas: “O mundo natural desaparece. A evidência está em toda parte. Aconteceu na minha vida. Vi com meus próprios olhos. Este filme é minha declaração como testemunha e minha visão de futuro, a história de como viemos a cometer este nosso maior erro e como, se agirmos agora, ainda podemos corrigi-lo”.

O documentário começa e termina em Priapyat, a cidade “atômica evacuada durante o acidente na usina nuclear de Chernobyl em 1986, como uma metáfora para ‘erros de cálculo e ações descontroladas”. Nesta paisagem apocalíptica, 34 anos depois, entretanto, os animais selvagens e a natureza exuberante se regeneraram e estão de volta, como nas antigas cidades dos maias. Simples assim: a natureza sobreviverá ao nosso declínio como sociedade, mas os seres humanos não conseguirão.
Com muito altruísmo, capacidade de ensino e um toque de otimismo em meio ao caos mundial, o protagonista propõe uma série de medidas para elevar o padrão de vida em todo o mundo sem aumentar o impacto destrutivo no meio ambiente.
“David Attenborough: A Life in Our Planet” é dirigido por três veteranos mestres do gênero, Jonathan Hughes, Keith Scholey e Alastair Fothergill. O que se lamenta é que este quarteto britânico não tenha sido tão rigorosamente comedido, pecando por excesso de cautela, não atribuindo com todas as letras responsabilidade a quem vem contribuindo decisivamente para tornar nossa condição humana um perigo real e imediato. Aqueles negacionistas de qualquer nacionalidade (climáticos, da ciência em geral, da circunferência terrestre, etc, etc), os mentirosos, os prepotentes, os inúteis e os descartáveis.


