O CLAUSTRO COMO CENÁRIO
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de março de 2001
Simone Mattos De Curitiba 
No processo de construção do espetáculo Sacromaquia, o elenco visitou conventos, presídios e prostíbulos. O objetivo era vivenciar ao máximo toda espécie de clausura. O resultado estará em cartaz a partir de hoje, na programação da Mostra Contemporânea do 10º Festival de Teatro de Curitiba.
Nas palavras da diretora Maria Thaís, Sacromaquia é um somatório de leituras, experiências, vivências e encontros de pessoas. É um verdadeiro patamar de reflexão sobre a cena. O risco e desafio de abordar o complexo tema da clausura feminina foi assumido pela Cia Balagan, formada em São Paulo há 11 anos sob supervisão de Maria Thaís.
Em cena, a clausura não vem por acaso. Ela é fruto direto da busca pelo sagrado. Martina, Tereza, Criatura, Menina, Verônica, Mariana e Juana são mulheres do século 17 que se debatem com o objetivo comum. Entre quatro paredes claras, erguidas com material orgânico e que lembram as construções de antigos conventos, elas e o público se enclausuram.
Vestidas com rústico figurino, assinado pelo mesmo criador do cenário, Márcio Medina, elas têm uma agilidade quase circense. No mesmo momento em que estão aqui, já aparecem lá na outra parede, cita a diretora. A isto, ela atribui o exaustivo treinamento corporal a que as atrizes vêm sendo submetidas há um ano.
A estréia nacional da montagem aconteceu em agosto, no Sesc Belenzinho de São Paulo. Viajando pela primeira vez, a companhia trouxe um caminhão de cenário a Curitiba. Para um espetáculo experimental isto não é pouco, exclama Thaís.
Mas o resultado final compensa. O chão branco dá uma idéia de infinito e o trabalho de iluminação não permite ao público a dimensão exata das paredes, aumentando a sensação de confinamento.
Além da cenografia e da iluminação, outros elementos garantem o mesmo conceito. A direção musical, por exemplo, foi criada a partir de estudos medievais sobre a freira compositora Hildegard Von Bingen e confronta com elementos da musicalidade popular.
Sonoridades distantes reverberam nos círculos da cena, tomam corpo ao lado das falas, declara o diretor musical do espetáculo, Fernando Carvalhaes. Segundo ele, os cânticos ouvidos na peça provêm de diversas tradições, como o cavalo-marinho brasileiro, folias portuguesas, cânticos afro-brasileiros e cubanos.
A música de Sacromaquia só poderia ser conduzida por vozeirios e canções, aboios e louvações, chamadas para que uma prece se realize, completa ele. Maria Thaís observa ainda que o espetáculo é delicado e exigirá ao máximo a atenção sonora do público. Além da música, há sussurros e passos, comenta.
Escrito originalmente em janeiro do ano passado por Antônio Rogério Toscano, o texto narra a vida de mulheres que acreditam no isolamento como sacralização do corpo e da alma. Para elas, o claustro é a via para a espiritualização.
As personagens principais são vividas por Carol Badra, Eloisa Elena, Fernanda Haucke, Fernanda Rapisarda, Lúcia Romano, Melissa Vettore e Mônica Guimarães. O ator Newton Moreno também integra o elenco.
As apresentações de Sacromaquia acontecem hoje, às 21h30, e segunda e terça, às 20 horas, no Polloshop Estação (Rua Sete de Setembro, 2775). O preço dos ingressos é R$ 20,00.


