São Paulo - Do outro lado da linha, falando de sua casa em Miami, um dos cantores latinos de maior sucesso no mundo, Julio Iglesias, de 67 anos, pergunta em português ao repórter: ''O que queres saber de mim que sua mãe ainda não lhe contou?''. O galã espanhol, que é pai de oito filhos e se gaba de já ter tido mais de 3 mil mulheres, revelou à reportagem que não se considera um símbolo sexual. Mas desconversou quando o tema foi a campanha que seu filho, Enrique, está fazendo para que se produzam camisinhas tamanho PP. Dentre suas manias, está a de não deixar se fotografar do lado esquerdo do rosto. Iglesias acaba de lançar um disco, o ''Volume 1'' (Som Livre), em que regrava seus maiores sucessos. O cantor promete uma turnê no Brasil em outubro deste ano.
Por que voltou ao estúdio para regravar suas canções em vez de relançar as versões antigas?
Se observarmos a vida de cantores como Roberto Carlos, Paul McCartney, Billy Joel e Elton John, por exemplo, eles não são capazes, assim como eu, de compor as mesmas canções de sucesso escritas no passado. Não consigo mais compor sucessos como ''Abrázame'', ''Hey'', ''Me Esqueci de Viver'' e ''Devaneios''. Simplesmente não consigo. Meu instinto é menos forte que minha cabeça. E instinto é muito importante para escrever essas canções que, depois de lançadas, passam a fazer parte da história de vida de várias pessoas. Cantei muito mal de 1968 a 1995. Por isso, quero repetir a gravação dessas canções.
O senhor cantava mal?
Escrevia bem e cantava mal. Agora, escrevo mal e canto bem. Escritores de prosa escrevem bem até o final da vida. Roberto Carlos, dificilmente, escreverá outra vez um sucesso tão grande quanto ''Detalhes''. Comigo acontece o mesmo.
Quantas canções quer regravar?
Este disco que lanço agora é uma amostra pequena da minha música. Tenho duetos com Frank Sinatra, Stevie Wonder, Sting, além de outros grandes cantores americanos. Vou regravar todas as canções que gravei na vida. Serão três anos no estúdio. Algumas delas regravarei em espanhol, português, italiano, francês e inglês. Mas vou continuar fazendo shows. Estou criando um legado. É a primeira vez que um cantor regrava todas as suas músicas.
Quer deixar um legado porque está com medo de morrer?
Não! Estou forte. Só morrerei no dia em que os fãs quiserem que eu morra. Antes, não.
As músicas do senhor fazem parte da trilha sonora da vida de muitas pessoas...
Com certeza, nenhum artista estrangeiro cantou tantas músicas em português quanto eu. A única razão para eu cantar em português é que adoro o Brasil.
E o que sente quando imagina que milhares de pessoas se casaram ao som de suas músicas ou estão, neste momento, fazendo amor ouvindo a sua voz?
Penso que deveria ganhar 20% disso tudo (risos). Ninguém está acostumado ao sucesso. Sucesso é um privilégio que as pessoas dão ao artista. É um sonho que se tornou realidade. Há pouco mais de um mês, cantei em Lisboa, depois no teatro da ópera de Barcelona. Estou viajando o mundo inteiro fazendo shows. Estou planejando fazer uma turnê no mês de outubro no Brasil. Desejo, de verdade, cantar novamente no Brasil.
Sempre cita as mães dos repórteres nas entrevistas. Por quê? Não vão meninas ao seu show?
Não me sinto velho. Na última semana, me apresentei para um público entre 20 e 25 anos.
Mas para um público de maioria feminina, não é?
Os homens que estavam lá queriam fazer amor com as mulheres da plateia (risos).
As mulheres vão ao seu show para ver um símbolo sexual?
Nós, os artistas, representamos muitas coisas. Às vezes, representamos uma música diferente. Os artistas, em geral, assim como os políticos, representam ideias que têm conotações com os aspectos físicos. O Lula (ex-presidente do Brasil) ganhou as eleições com um aspecto que os brasileiros se identificam. Dilma, presidente do Brasil, representa um tipo de mulher com o qual outras mulheres se identificam. Políticos e artistas têm uma representação física, artística, emocional que forma um conjunto que faz uma pessoa pública.
Mas o senhor se considera um símbolo sexual?
Não. Sou um artista dos pés à cabeça. Me fiz um artista. Nunca fui grande em nada. Aprendi a ser grande em tudo. O ''grande'' é no sentido da vida e não da pretensão. Aprendi a sobreviver. São grandes aqueles que triunfam com sacrifício. Quem triunfa sem sacrifício não é grande. É muito importante isso. O sucesso, se não tem sacrifício por trás, não é um sucesso com glória.
Como uma pessoa pública, o senhor já sentiu sua privacidade invadida? Incomoda-se com isso?
Adoro a invasão das pessoas na minha vida. Canto para elas.
Mesmo com fotógrafos inconvenientes?
Se a foto for bonita, eu vou adorar.
E o que pensou quando soube que seu filho Enrique Iglesias pediu às fábricas de camisinha que produzam tamanho PP para ele?
Esse assunto não me interessa. Não sou meu filho. Ele pode falar o que quiser. Ele é inteligente e fala as coisas que interessam a ele. Eu somente entendo da relação de pai e filho. As respostas de meu filho são boas para mim.
O senhor já disse que nunca foi fiel. O que quis dizer com isso?
Sou fiel ao meu público e à minha consciência. Também às pessoas que acreditam em mim. Tenho fé na vida. Quando a pessoa é fiel à vida, a vida retribui. Mas fidelidade individual é muito mais difícil de explicar. Quem tem a consciência tranquila, que trabalha, que ama, é sempre fiel. Mas se me falam de fidelidade pessoal, de pessoa a pessoa, então, eu não sou.
E fidelidade ao casamento?
Casamentos são diferentes. Eu amo minha mulher mais do que a mim mesmo. Amo meus filhos e amo a vida também. Mas eu tenho asas para voar e não tenho âncora para ficar.
Pensa em ter mais filhos?
Não tenho filhos sozinho. É uma relação de duas pessoas. Tenho oito crianças que amo e adoro. Se um dia acontecer... Nunca se sabe.
Voltando à política, tem vontade de conhecer Dilma ou Lula?
Conheci Juscelino Kubitschek (presidente do Brasil entre 1956 e 1961). Não conheço Lula nem Dilma. Tenho vontade de conhecer Lula. Gosto de sua imagem, de sua intensidade. Sou uma pessoa que fica feliz com a decisão do povo. Se eles estão felizes, fico feliz.
Como foi esse encontro com Kubitschek?
Adorei Kubitschek. Ele foi um presidente que deixou um legado histórico. Foi muito trabalhador. Conheci mais de 300 presidentes. Mas não posso falar sobre a política brasileira, porque não sou brasileiro. É uma intromissão. O povo que tem de responder aos seus presidentes. Sou brasileiro por coração e não por votação. Gosto de presidentes cujas palavras são iguais aos seus olhos.
E que presidentes têm palavras iguais aos olhos?
É difícil falar disso. A política de hoje é muito difícil. Gosto de presidentes históricos, incógnitos, administrativos, que não têm nome e fazem o que deve ser feito. Que executam o sonho das pessoas. Gosto de presidentes que não fazem guerra. Só paz.

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