O circuito e o curto-circuito artístico
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de junho de 2001
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha 2 
Estamos tão acostumados com a idéia de que para ser um artista é preciso ser um gênio, que parece muito natural que todo o circuito artístico gire em torno do nome de figuras que parecem ser os portadores do fogo sagrado da criação, sem chances aos mortais comuns de exercitarem também o ato criativo.
Estamos tão acostumados a viver em uma sociedade de contrastes sociais, que parece natural que alguns sejam detentores de todos os meios produtivos e o resto da população permaneça na mais absoluta carência de todos os meios de sobrevivência. Aceitamos como natural nossa desorganização civil e permitimos (às vezes desejamos) que a injustiça se perpetue entre nós. Falta-nos um líder capaz de conduzir o país ao desenvolvimento? Que nada! Temos um candidato ao posto de salvador da pátria em cada esquina. Falta-nos um sentimento de sermos nação!
No mundo da arte, funciona do mesmo jeito. O chavão enquanto uns possuem muito, muitos não possuem nada continua valendo. E ainda somos obrigados a engulir a unanimidade em torno de certos nomes como se a arte ainda girasse em torno da idéia de gênio. Não é só na política, como no circuito artístico, nas academias, nos meios científicos e nas instituições que os vícios se perpetuam, uma vez que o mecanismo que mantêm os privilégios que tornam a coisa pública em causa particular, uso privado, são os mesmos.
Como não há política cultural definida para o setor artístico (como de resto, em vários setores), os recursos acabam servindo sempre a um mesmo grupo, ou, a um mesmo padrão de pensamento que privilegia aquilo que possa beneficiar unicamente sua própria sobrevivência e manutenção de poder. Não aparece um nome novo sequer que não tenha passado pelo aval de certos esquemas hegemônicos - também chamado de o meio - para mostrar seu trabalho para o público. Os mesmos grupos controlam galerias, museus, os resultados dos salões de arte, das bolsas de pesquisa, das verbas para os projetos de incentivo, reduzindo, assim, a pluralidade e a diversidade de aspectos da produção, monopolizando a cultura em favor de interesses privados.
Ficamos impressionados com tal exposição de arte, com tal qualidade técnica de um trabalho artístico, com a produtividade de certos artistas, mas em geral não nos questionamos de onde saem os recursos necessários para tais investimentos. É só ver a lista de patrocínios: lei de incentivo x, ministério y, governo não sei de onde, sociedade dos amigos influentes dos cargos públicos e por aí vai. E acabam sempre nos vendendo a idéia de que deixaremos de ser provincianos, podendo viver no primeiro mundo pelo menos enquanto ocorre a mostra, o show, a exposição, a compra do acervo.
Como na política, não adianta reclamar do governo se a sociedade civil não se organiza. O projeto de construção de nossa identidade nacional passa por começarmos a discutir nossos próprios pressupostos, não permitindo que façam por nós a partir de um modelo imposto. Imposto, aliás, recolhido da minha, da sua contribuição, caro leitor.
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