O cinema sob censura
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segunda-feira, 07 de dezembro de 1998
Daniel Biasetto Agência Estado 
O pesquisador Inimá Simões lança em abril um livro que promete muita polêmica. Ele vasculhou exaustivamente alguns arquivos do País, entre os quais o Arquivo Nacional, em Brasília, para recolher informações sobre os pareceres e os cortes feitos pela censura federal em filmes brasileiros e estrangeiros, nos tempos do regime militar.
ReproduçãoO Grande Ditador, de Charles Chaplin: proibido em 1942, por insultar as autoridades constituídasA obra é estruturada a partir de um histórico da censura cinematográfica brasileira desde o início do século até os últimos dias dos militares no poder, abordando temas como a exibição do filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, no exterior - vetada aqui para não denegrir a imagem do País - , Matou a Família e Foi ao Cinema, de Júlio Bressane, Os Inconfidentes e Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade.
O livro é uma espécie de radiografia do pensamento autoritário repressivo, que não tolerava nenhuma discordância com os pontos estabelecidos na legislação do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), criado em 1939, no Estado Novo de Getúlio Vargas, explica Simões.
O autor de Roberto Santos, a Hora e a Vez do Cineasta (Editora Senac, 1997), diz que o fato de existir pouca literatura sobre o tema o incentivou a pesquisar durante dois meses na divisão regional do Arquivo Nacional, em Brasília. Eu sabia que a censura cinematográfica era centralizada na capital do País mas, quando vi os milhares de processo existentes, fiquei muito entusiasmado, revela.
ReproduçãoOs Cafajestes (1962), de Ruy Guerra: cenas de nudez frontal de Norma Bengell incomodaram a censuraApesar de aparecer com forte expressão nos anos de chumbo, a censura marca a filmografia brasileira desde o início do século. Segundo Simões, antes quem controlava os títulos e temas a serem permitidos era a igreja, sob a justificativa de preservar a união da família. Mas o primeiro caso de censura oficial aconteceu em 1912, quando um produtor desconhecido filmou um documentário sobre a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, em 1910.
Cartazes espalhados pela cidade foram retirados e o filme foi proibido por tratar de um acordo que a Marinha não cumpriu com os seus oficiais e resultou no levante de alguns marinheiros contra a cidade do Rio, distrito federal na época.
Quando Getúlio Vargas criou o Estado Novo, em 1937, oito pontos foram estabelecidos na Legislação Completa da Censura para que os filmes e documentários não transgridam a ordem (ver matéria nesta página). Muitas legislações iriam surgir até a Constituição de 88, mas todas elas continham pequenas modificações deixando a lista praticamente na íntegra.
Um dos primeiros filmes censurados vem de fora. O Grande Ditador, de Charles Chaplin, chegou ao Brasil em 1942 e o DIP rapidamente proibiu a comercialização da obra por se tratar de um insulto às autoridades constituídas. Nos anos 50, ocorre a proibição do filme Rio 40 Graus, do cineasta Nelson Pereira dos Santos. A obra mostrava um reverso do cartão postal do Rio de Janeiro, capital do País na época, denunciando os problemas sociais enfrentados pelos cariocas.
O chefe da Polícia Federal, coronel Menezes Cortes, censurou o filme alegando desrespeito à imagem da capital e finalizou a medida com uma frase histórica: Além do mais, no Rio de Janeiro não faz 40 graus.
Na década de 60, outros filmes sofreram cortes dos censores. É o caso de Os Amantes, de Loui Malle, e em 1962 de Os Cafajestes, de Ruy Guerra, este último escandalizou o País com a nudez frontal de Norman Bengell. Quando o filme Macunaíma - obra adaptada do livro de Mário de Andrade, escrito em 1926 -, foi concluído em março de 1969, o autor Joaquim Pedro de Andrade foi preso sob as acusações de sediar reuniões políticas em sua casa.
Várias cenas do filme foram cortadas e a censura começou a ampliar seu campo de ação, atingindo apresentadores como Chacrinha, Silvio Santos e Dercy Gonçalves. Até 1970, São Bernardo - obra adaptada do livro de Graciliano Ramos por Leon Hirszman - e Toda a Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor, engrossariam a lista dos censurados.
Um dos poucos que conseguiram passar pela censura foi Os Inconfidentes, filme de Joaquim Pedro de Andrade, baseado nos Autos da Devassa. O trabalho foi lançado no 150º aniversário da Independência do Brasil, em 1972, e tinha em uma segunda leitura uma crítica feroz ao regime, mas os censores não conseguiram vetá-lo porque o General Médici alegou que não podia proibir uma filme que retratasse a história do País.


