Há quase uma década, e depois de ter criado trilhas musicais para quase 200 filmes, Maurice Jarre abandonou definitivamente o cinema. O compositor francês nascido em Lyon, que morreu domingo último em Los Angeles, aos 84 anos, já não suportava a mesquinharia artística da nova Hollywood. Há tempos ele renegava uma indústria que preferia substituir jóias musicais lapidadas com enorme talento pelos práticos e emburrecidos sintetizadores.
Jarre, que havia gravado a música de ''Dr. Jivago'' com 25 balalaikas (instrumento russo de cordas), que contou com 15 harpas para a ''A Filha de Ryan'', que descreveu em ''Paris Está em Chamas ?'' a entrada dos alemães na capital francesa ao som de 12 pianos de cauda e que mesclou musica eletrônica com a tradicional da Indonésia em ''O Ano em Que Vivemos em Perigo'' - este gênio musical tão criterioso já não se encaixava no negócio. ''Não preciso trabalhar naquilo que não me entusiasma. Estou cansado de produtores que querem ouvir uma grande orquestra contratando somente três instrumentistas''.
O cinema e a música perderam um de seus compositores mais célebres, autor de trilhas como ''Lawrence da Arábia'', ''Passagem Para a Índia'', ''O Homem que Queria Ser Rei'', e ''O Mais Longo dos Dias'', títulos de maior destaque. Durante quatro décadas colaborou com os diretores de cinema mais importantes de seu tempo, de David Lean a Alfred Hitchcock, passando por Luchino Visconti, Elia Kazan, John Huston, Richard Brooks, George Stevens, William Wyler. Muitas histórias de amor pelo mundo afora, nascidas pelos idos de 1965, tiveram como hino oficial o hiper-exposto ''Tema de Lara'', a sofredora personagem vivida por Julie Christie em ''Jivago''.
Ao lado de Ennio Morricone, John Barry, Georges Delerue e Michel Legrand ele formou o quinteto de ouro da nova música cinematográfica europeia dos anos 1960 e 70. Foi o mais digno herdeiro dos mestres sinfônicos que reinaram em Hollywood até o início dos anos 60 - Max Steiner, Victor Young, Franx Waxman, Erich Kornogold, Dmitri Tiomkin.
Sua imensa contribuição ? Um estilo musical personalíssimo, que fazia imagem e música ''grudarem'', uma coisa só, viscerais. Um instinto natural para equilibrar, como nenhum outro, o efeito espetacular e o contraponto dramático. A capacidade exemplar para descrever em notas as mais íntimas emoções dos personagens. É possível imaginar a imensidão oceânica do Saara e o deserto interior de Lawrence sem a música de Jarre, ou Lara sem seu tema de um lírico exasperante, ou a libertação de Paris sem outro ritmo que não a valsa triunfalista, ou Sean Connery e Michael Caine querendo ser reis nos confins da civilização sem aquela zombeteira sonoridade marcial ? Por essas proezas foi nove vezes nominado ao Oscar, ganhando três; onze vezes ao Globo de Ouro, levando quatro; e dois meses antes de morrer, o Urso de Ouro pela carreira no Festival de Berlim.

mockup