O cinema perde Denoy de Oliveira


Luiz Carlos Merten
Agência Estado
Luiz Carlos Merten Agência Estado

Nunca houve outro herói para Denoy de Oliveira que o homem comum. É o que se apreende da análise da obra do cineasta, especialmente de seu filme mais famoso: ‘‘O Baiano Fantasma’’, que venceu o Festival de Gramado de 1984. A honestidade intelectual marca a obra do cineasta que morreu anteontem, em São Paulo, aos 65 anos. Denoy estava internado desde sábado no Hospital das Clínicas. No domingo, submeteu-se a uma cirurgia abdominal. Recuperava-se quando teve a parada cardíaca na noite de quarta. Foi enterrado ontem.
Ele nasceu em Belém (PA), em 1933. Ainda criança se mudou para o Rio, onde cursou teatro. Participou do núcleo de teatro do Centro Popular de Cultura, o CPC, e da fundação do grupo ‘‘Opinião’’, tendo sido responsável pelas músicas das peças ‘‘Se Correr o Bicho Pega, se Ficar o Bicho Come’’ e ‘‘Dois Perdidos numa Noite Suja’’.
No cinema, associou-se ao irmão Xavier de Oliveira, que o antecedeu na direção, com ‘‘Marcelo Zona Sul’’ e ‘‘André a Cara e a Coragem’’. Fez a música dos dois. Transferiu-se para São Paulo nos anos 70, quando se tornou ativista de movimentos de classe. A consciência política marcou o cidadão e reflete-se na obra.
Ator de ‘‘O Homem Que Virou Suco’’, de João Batista de Andrade, e ‘‘A Hora da Estrela’’, de Suzana Amaral, estreou na direção de longa com ‘‘Amante muito Louca’’, que conta com memorável interpretação de Teresa Raquel. Dirigiu depois ‘‘J.J.J., o Amigo do Super-Homem’’, uma sátira aos filmes de detetives da TV, e ‘‘Sete Dias de Agonia’’, baseado no conto ‘‘O Encalhe dos 300’’, de Domingos Pellegrini, sobre um grupo de caminhoneiros preso num atoleiro.
Em 1984, depois de dois anos de trabalho, conclui ‘‘O Baiano Fantasma’’. É seu filme mais importante. O tema, o choque do migrante interno com a cidade grande, que ele procura na esperança de mudar de vida, mas em cuja engrenagem acaba sendo triturado, não era novo. Já havia sido tratado, em chave de ficção, por João Batista de Andrade em ‘‘O Homem Que Virou Suco’’, também com José Dumont. Procurando dar-lhe um tratamento mais original, Denoy optou por dar um tom de poesia de cordel à história do paraibano Lambrusca, roubado por um falso cego ao desembarcar na rodoviária de São Paulo. Acertou.
Antes de chegar à metade do filme, Lambrusca aprende muitas lições, raras edificantes, sobre a desumanidade da cidade grande. Sem saber, transforma-se no ‘‘Baiano Fantasma’’, um misterioso delinquente perseguido pela polícia e por marginais. Quando chegou ao Festival de Gramado de 1984, Denoy confiava nas possibilidades de Dumont vir a receber o prêmio de melhor ator.
O que não imaginava é que ‘‘O Baiano Fantasma’’ também seria agraciado com os Kikitos de melhor filme e direção, além de uma menção honrosa para o ator Rafael de Carvalho, em seu último papel no cinema.
Passaram-se mais de dez anos antes que Denoy, premido pelas dificuldades do cinema brasileiro, pudesse voltar à direção de um longa. Seu novo filme, ‘‘A Grande Noitada’’, é uma ambientação brasileira de Tristão e Isolda. Em julho de 1996, o cineasta deu entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo em busca de verba para a sonorização e a finalização.
‘‘A Grande Noitada’’ concorreu no Festival de Brasília do ano passado. Integrou a seleção de filmes brasileiros da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo deste ano. Tinha (ou tem) estréia prevista para o dia 27.
Desta vez, Denoy não estará presente. ‘‘A Grande Noitada’’ terá de procurar seu caminho sozinho, sem o autor.

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