SÃO PAULO - O diretor americano David Lynch, conhecido por sua obra voltada aos mistérios surreais e ao 'noir', morreu nesta quinta-feira (16), aos 78 anos, devido a um enfisema pulmonar. A informação foi conformada por sua família em uma publicação no Facebook.

"É com profundo pesar que nós, sua família, anunciamos a morte do homem e do artista, David Lynch. Agradeceríamos se pudessem nos dar um pouco de privacidade neste momento", escreveram na rede social. "Há um grande vazio no mundo agora que ele não está mais entre nós. Mas, como ele diria: 'Mantenha os olhos no donut, e não no buraco.' É um dia lindo, com sol dourado e céu azul por toda parte."

Em agosto do ano passado, David Lynch disse à revista britânica Sight and Sound que tinha enfisema e, por causa da doença, não poderia mais dirigir filmes presencialmente, no lugar das filmagens. Ele afirmou que sua condição de saúde, uma doença que atinge o pulmão, foi causada pelo cigarro.

"Por isso, estou preso em casa, goste ou não. Não posso sair. E só consigo caminhar uma curta distância que já fico sem oxigênio", disse. "Fumar era algo que eu adorava, mas no final me incomodou. Fazia parte da vida artística para mim —o tabaco e o cheiro dele, e acender coisas e fumar e voltar e sentar e fumar e olhar para o seu trabalho, ou pensar sobre as coisas. Nada neste mundo é tão bonito. Ao mesmo tempo, está me matando. Então tive que parar."

Na ocasião, Lynch chegou a dizer que era improvável que ele voltasse a dirigir um longa-metragem novamente. Mas, se o fizesse, não seria de maneira presencial. "Tentaria fazer isso de maneira remota, se for o caso", afirmou. "Mas acho que eu não gostaria tanto assim de fazer isso."

TRAJETÓRIA

Lynch estourou na cena independente americana com o seu inovador filme de terror "Eraserhead" (1977), um clássico assustador que virou uma produção cultuada, rodada com baixo orçamento durante cinco anos porque ele ficou sem dinheiro e tinha uma esposa e uma filha para sustentar.

O cineasta foi aclamado pela crítica com filmes como o mistério sadomasoquista "Veludo Azul" (1986) e o thriller lésbico "Cidade dos Sonhos" (2000).

Mas talvez ele seja mais lembrado por sua fascinante série de TV dos anos 1990, "Twin Peaks", que foi pioneira no gênero antes da era do streaming.

"Seria difícil olhar para uma lista de programas de televisão de qualquer época sem encontrar vários que tenham uma dívida criativa com 'Twin Peaks'", avaliou a The Atlantic em 2016, em um artigo elogiando sua influência sobre diretores como Quentin Tarantino e os irmãos Coen.

Indicado ao Oscar em quatro ocasiões, incluindo três vezes na categoria de Melhor Diretor, o cineasta levou para casa apenas uma estatueta honorária, em 2019.

"É um lindo dia com sol dourado e céu azul o tempo todo", diz a declaração de sua família, uma referência às caprichosas publicações online de Lynch sobre o clima.

AULAS DE MEDITAÇÂO TRANSCEDENTAL

David Lynch foi praticante da meditação transcendental, uma técnica de relaxamento para o corpo e a mente.

Ele até financiou um curso sobre o tema para um grupo de policiais brasileiros, em 2015. Participaram das aulas funcionários do Bope, o Batalhão de Operações Policiais Especiais, e do Batalhão de Choque da Polícia Militar do Rio de Janeiro. O objetivo era reduzir o estresse causado pelo cotidiano da profissão.

O dinheiro foi enviado pela David Lynch Foundation, organização mantida pelo cineasta, que ficou famoso por filmes como "Veludo Azul", lançado em 1986, e "Cidade dos Sonhos", que chegou aos cinemas em 2001.

Em entrevista à Folha de S.Paulo na ocasião, Lynch afirmou que a meditação "não é religião, não é culto, é uma técnica que permite que você chegue até a felicidade infinita, a inteligência infinita, a criatividade infinita, o amor infinito".

O diretor visitou o país para divulgar o livro "Em Águas Profundas - Criatividade e Meditação", em que conta como transforma suas ideias em filmes. O cinema é um mundo de ideias, ele disse a este jornal. "Tudo começa com uma ideia. Quando você tem uma e se apaixona por ela, deve segui-la."

As aulas de meditação transcendental aos policiais brasileiros foram ministradas por Klebér Tani, que era diretor da Sociedade Internacional de Meditação Transcendental no Rio de Janeiro e estava acostumado a ensinar a técnica para celebridades. "A meditação transcendental consiste em um mergulho na fonte dos pensamentos e um encontro com a paz interior", afirmou ele.

A disseminação da técnica é creditada ao indiano Maharishi Mahesh Yogi, que nasceu em 1918 e morreu em 2008, que nas décadas de 1960 e 1970 recebeu apoio de celebridades como os músicos dos Beatles e da atriz Mia Farrow.

(Com France Presse)
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