O cinema no divã
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 13 de março de 2017
Layse Moraes<br>Especial para Folha 2 

Psicanálise e cinema são contemporâneos. Enquanto, em 1895, os irmãos Lumière faziam suas primeiras projeções, "Estudos sobre Histeria", o primeiro livro de Freud, também estava sendo publicado. Em 1900, Freud publica a "Interpretação dos Sonhos", livro que marca o início da psicanálise.
A ligação entre cinema e psicanálise é mais do que temporal. A psicanalista Tania Rivera, autora do livro "Cinema, Imagem e Psicanálise", explica: "Me parece interessante e produtivo para o pensamento explorar a convergência histórica entre psicanálise e cinema, buscando entender como ambos dão notícias do sujeito: de sua forma de produzir imagens e palavras, de sua relação com as narrativas, de seu modo de colocar-se em cena no mundo".
É essa convergência o eixo principal dos "Encontros de Cinema e Psicanálise", que começam hoje, dia 14, na Associação Médica de Londrina. Coordenadas pelo psicanalista Marcelo Castro, as reuniões mensais, que fazem parte do programa de residência médica em psiquiatria do HU, já acontecem desde 2009 e partem da sessão de um filme previamente escolhido.
Este ano, o título selecionado para abrir o ciclo é o argentino "Relatos Selvagens" (2014), do diretor Damián Szifron. Aclamado pela crítica e pelo público, o longa, um compilado de histórias ligadas pela tônica da vingança, foi um dos mais vistos na história do cinema argentino.
Marcelo Castro conta que o fio condutor que vai nortear os encontros deste ano são os conceitos freudianos: "Em cada encontro, eu vou tentar trabalhar um conceito de Freud, um sintoma e um sentimento", explica ele. Marcelo também adianta alguns pontos que serão discutidos hoje à noite: "O tema da minha exposição será o selvagem, "O mais forte", que é o nome da segunda história. Então eu vou trabalhar com essa noção de que o ser humano é conduzido por um impulso, por uma demanda pulsional, uma exigência interna diante das situações de frustração. O filme parte de exemplos extremos, caricaturais, exagerados, mas o que choca é o realismo plausível de todas aquelas situações. Então vamos falar sobre pulsão, frustração, renúncia... E com um pequeno alerta: ledo engano pensarmos que precisamos chegar ao limite, ao bizarro da violência, nos moldes apresentados pelo filme. Eu estou me referindo à violência nossa de cada dia. Quero falar também da noção de sintoma em Freud. No filme, vemos vários sintomas graves, várias loucuras que foram perpetradas até o ponto de não ter mais retorno. O selvagem quando toma conta leva a gente ao ato antissocial".
Tania Rivera ressalta que há no cinema algo que se associa ao inconsciente, principalmente no sentido da criação de fantasias: "O cinema age de forma parecida com nosso inconsciente ao produzir narrativas. Acho interessante refletir sobre como assistir a um filme pode convidar o sujeito a um trabalho de memória e elaboração que ensina sobre o modo de constituição de suas narrativas desejantes".

CONVIDADOS
Os Encontros transcendem a proposta da residência e atingem curiosos e apaixonados por cinema e psicanálise. Pela diversidade dos participantes, Marcelo tenta sempre fazer articulações com outros campos de conhecimento, como filosofia e sociologia, e também trazer convidados de outras áreas para agregar ao debate.
Ele também deixa claro que, apesar de ter a presença de pessoas com alguma familiaridade com os conceitos freudianos, a abordagem super teórica não é a tônica dos encontros: "Eu tento ser sensível à heterogeneidade do público. Não é um encontro entre especialistas e nem uma fala voltada para iniciados na psicanálise".
Sobre a seleção dos filmes, Marcelo conta que cada ano segue, mais ou menos, uma linha temática. Ele também tenta sempre passar um filme brasileiro, um latino-americano, um europeu e uma animação. "De vez em quando a gente passa filme hollywoodiano também, não tem problema. Mas são sempre filmes de qualidade, que fazem pensar", reforça ele. Um dos mais marcantes até agora, ele revela, foi "O Segredo dos Seus Olhos", mas confessa: "Seria difícil apontar um único filme em todo esse percurso. O debate acrescenta coisas que eu não tinha pensado antes. O encontro humano é fascinante".
Este ano, nos nove encontros mensais programados, o público pode esperar ansioso: na lista de possíveis títulos selecionados, estão "O Iluminado", com o qual será discutido o transtorno dissociativo, "Kill Bill" e "Ferrugem e Osso". Mas tudo pode acontecer: "É um processo, então os filmes são selecionados conforme a sugestão e o andar dos encontros", explica Marcelo.
Não é à toa que o cinema é chamado de a sétima arte. "Como condensação de formas artísticas, o cinema se presta maravilhosamente para a reflexão psicanalítica", conclui Marcelo. Mas teria o cinema um efeito terapêutico? Para Marcelo, "a psicanálise é um meio fantástico de o sujeito resgatar a sua própria história, algo que está além da narrativa que ele traz. Então o cinema pode incitar diálogos que nos mobilizem a resgatar outra história. A psicanálise convida: vamos rever essa história? E o filme pode ser uma forma bacana de dar uma cutucada nesse sentido. Mas, a rigor, espera-se que uma sessão de terapia tenha um nível de sensibilização de algo que vai além do desfrutar estético de uma obra cinematográfica".
Para Tania, "eventualmente um filme pode tocar-me a ponto de me fazer sonhar ou reconhecer em mim algum desejo, mas ele o faz de maneira pontual, que não pode ser comparada com o processo de retomada da própria história e elaboração continuada posto em movimento em uma análise pessoal. Parece-me inegável, contudo, que o cinema seja um dos produtos culturais que mais poderosamente exploram e põem em movimento nossa condição de seres conformados por narrativas alheias, das quais nos apropriamos e com as quais construímos nossos desejos".
De toda forma, ao que parece, no que depender dos Encontros que virão, refletir sobre os modos de vida e os modos de sofrimento a partir do cinema pode fazer com que consigamos lidar melhor com as nossas próprias questões.
"Encontros de Cinema e Psicanálise"
Quando: terça-feira (14)
Horário: 18h30
Onde: Anfiteatro da Associação Médica de Londrina - Av. Harry Prochet, 1055
Entrada franca


