O cinema nacional busca seu público
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quarta-feira, 13 de agosto de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
DivulgaçãoEsdras Rubin:Nos anos 70, os filmes nacionais tinham até 5
milhões de espectadores, hoje quando têm um milhão já se comemoraAo mesmo tempo em que volta a abrir espaço para o longa-metragem brasileiro, confirmando assim a retomada do processo cinematográfico no País, o 25º Festival de Gramado está propondo uma discussão paralela vital para a continuidade e sobrevivência do cinema nacional. Foi sobre a reconquista do mercado interno e também sobre o atual momento do Festival de Gramado que o coordenador geral do evento, Esdras Rubin, conversou com exclusividade com a Folha2. A seguir, os principais momentos da entrevista.
São 25 anos de Festival. O que em termos de fato cultural no País, se não chega a ser recorde, pelo menos fica muito perto disso. E coloca Gramado entre as mostras especializadas de maior longevidade. Qual o segredo?
Esdras Rubin - Em primeiro lugar, a distância entre o Rio Grande do Sul e os principais pólos produtores cinematrográficos do Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro. Isto diminui as pressões e as ingerências de A ou B, nas decisões da Comissão Organizadora do Festival de Gramado. Ao mesmo tempo, as pessoas que trabalham por Gramado - o grupo principal - já o fazem há mais de vinte anos. Ao longo desses anos, sem receber nenhuma remuneração criaram experiência e um conceito de justeza, que é respeitado pelos produtores e diretores brasileiros. Além disso, o Festival de Gramado sempre tentou promover o cinema nacional nas suas variadas bitolas - Super 8, 16mm, 35mm - ajudando muitos a firmarem suas carreiras. A grande maioria da classe é bastante agradecida a isso. Mais um motivo. Todos gostam de vir e voltar a Gramado. A cidade oferece, na semana do Festival, além do congraçamento da classe, uma quietude bucólica que agrada principalmente os que vivem na agitação diária dos grandes centros. Desde 1991, quando Gramado se tornou um Festival Latino-Americano, promove igualmente o conhecimento de produtores, atores e realizadores de toda a América Latina, além de trazer também organizadores de outros festivais, como Havana, Cartagena, Mar del Plata, Montevidéu e Vina del Mar.
A fórmula que vigora atualmente - duas mostras paralelas, latina e brasileira - é definitiva?
Esdras Rubin - Nada é certo na vida, a não ser a morte. As duas mostras foram instituídas em 1996, visando um trabalho mais aperfeiçoado dos jurados. Não há sentido um diretor, roteirista, um ator latino, julgarem os filmes brasileiros. Assim, desde o ano passado, temos dois júris, um para a Mostra Competitiva Latina e outro para a brasileira. A fórmula deu certo, mas não sabemos se é definitiva. Depende de como se comportam os cinemas que são feitos nesse nosso Terceiro Mundo, tão sujeito a surpresas econômicas, políticas e administrativas.
Ninguém ignora que o atual momento de retomada do cinema brasileiro é ou deveria ser de euforia vigiada. Como, o Festival de Gramado, internacionalizado, pode ser incluído neste processo?
Esdras Rubin - Existe realmente no momento uma retomada da produção cinematrográfica brasileira. Ao mesmo tempo, o grande público continua preferindo os filmes norte-americanos que têm enormes verbas de produção e promoção. Enquanto nos anos 70 alguns filmes nacionais passavam dos 5 milhões de espectadores (Dona Flor e seus Dois Maridos chegou a 12 milhões) hoje, quando se atinge um milhão, já é motivo de comemorações. Então, se há uma retomada da produção, ainda não existe uma resposta equivalente do público. E isto não é apenas um problema do Brasil. Países de Primeiro Mundo como o Japão, a Alemanha, França e a Inglaterra, que têm uma numerosa produção cinematográfica, nas últimas temporadas chegam a ter menos de 30% de presença nos seus mercados exibidores. Gramado faz o possível para ajudar a reverter este quadro, mas é difícil. Esse ano, além de procurarmos a melhor representatividade do nosso cinema, estamos promovendo um Encontro Nacional dos Exibidores, que pode ajudar verdadeiramente a retomada, não apenas da produção brasileira, mas também do público. Tudo, entretanto, é uma questão de mercado. Cabe a nós fazermos a nossa parte mas não temos capacidade de reverter este quadro num trabalho que acaba se resumindo ao curto período do Festival.
O cinema do resto do continente é muito parecido com o nosso, sobre todos os aspectos. Daí uma necessidade, digamos, quase visceral de manter aberta esta janela para a troca de experiências, problemas e possíveis soluções comuns. Concorda?
Esdras Rubin - Cada vez é mais difícil promovermos o Festival com a grandeza que ele merece. Os custos aumentam, os patrocinadores diminuem, o esforço tem que ser redobrado. Ao mesmo tempo, a cada ano que passa, nota-se uma integração maior com os países latinos. A troca de problemas é muito maior do que a troca de experiências e possíveis soluções. Estamos quase todos irmanados nas mesmas dificuldades. O conhecimento mútuo é muito importante e nos ajuda a buscarmos forças para continuarmos. Gramado já está integrado aos mais importantes festivais que se realizam na América de Língua Latina, e isto só pode beneficiar o cinema brasileiro. Todos estamos precisando de fôlego, mas o cinto aperta cada vez mais.


