O cinema inteligente de Cuba
Comédia feita na ilha mostra que roteiros originais ainda são possíveis
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2DivulgaçãoCena
de
Tropicanita,
de
Daniel
Diaz
Torres
Num tempo em que idéias originais (e ótimas) são cada vez mais raras nas telas, é um prazer estar diante de um filme como o cubano Tropicanita, exibido na terceira noite do 26º Festival de Gramado - Cinema Latino e Brasileiro. Não é mero acaso o binômio qualidade e procedência. Cuba mantém há muitos anos um elevado padrão de ensino de cinema, através da prestigiosa escola de San Antonio de Los Ba¤os - Gabriel García Marquez é frequentador habitual, com suas oficinas de roteiro. Nos últimos anos, a produção que sai da ilha tem sido contemplada com calorosa receptividade mundo afora, e alguns títulos recentes saíram de Gramado com os Kikitos de melhores filmes - Morango e Chocolate em 94 e Guantanamera em 96, ambos da dupla Tomás Gutierrez Aléa e José Tabio.
Tropicanita é uma deliciosa comédia, com ingredientes de tal forma balanceados que é praticamente impossível a não adesão imediata da platéia, envolvida completamente logo nos primeiros minutos. Aqui se poderia aplicar o velho jargão dos resenhistas de obras literárias, vertente policial: o espectador começa e não consegue mais desgrudar do que vê, e está sempre sôfrego à procura da cena seguinte, até o desfecho surpreendente.
Sintetizar uma trama tão elaborada e tão rocambolesca é que são elas.
Resumindo: nos dias de hoje, aparece nas ruas de Havana o cadáver de um turista alemão, morto ao cair de um prédio, usando grandes asas e segurando os restos do que parecia uma garrafa. Um policial do interior, aspirante a escritor e a serviço temporário na capital, vê no caso uma chance de sair da rotina e da mediocridade que marcam seus dias de marasmo num remoto povoado da província. Ele aos poucos desenvolve intrincadas teorias envolvendo muitos e curiosos personagens num mistério que vai adquirindo contornos cada vez mais mirabolantes. O que faz a diferença é que o policial tem pretensões de um dia se tornar escritor.
O diretor e roteirista Daniel Diaz Torres não soube apenas escrever bem sua história. Virtude paralela foi tirar do papel e dar corretíssima fluência narrativa a um argumento que corria o risco de se transformar num caleidoscópio ininteligível, e portanto desinteressante e sem graça.
Há de tudo um pouco, na trama engendrada pela imaginação efervescente do policial, porta-voz do diretor. Espiões nazistas atrás de uma fórmula (à base de garapa...) para derrotar os russos em Stalingrado, arqueólogos profanadores de túmulos em busca de estranhos objetos que poderiam conter a tal fórmula, fogosas rumbeiras de cabaré usadas como fachada para a espionagem durante a Segunda Guerra, terríveis segredos de família, atentados a tiros, facas e croquetes, vinganças, marchas e contramarchas, pistas falsas, aparências que enganam. Tudo recheado com hilariantes citações, homenagens, plágios assumidos e referências sócio-político-escrachadas a Cuba de ontem e de hoje, ao regime de Fidel, a gêneros cinematográficos - de Casablanca a O Falcão Maltês - e literários (Hemingway, e quem mais, é o paradigma).
O que encanta em Tropicanita é sua capacidade permanente de surpreender a cada momento com humor inteligente, de sacudir o marasmo dos filmes de fórmula, injetando poções generosas de criatividade. Claro que para a harmonia do conjunto um elenco afinado era mais que recomendável, até mesmo vital. E é este com certeza outro referencial de excelência, através de nomes como Vladimir Cruz (melhor ator em Gramado por Morango e Chocolate), Carlos Cruz, Enrique Molina e Thaís Valdez.
É cedo ainda para se falar em prêmios, mas o júri já tem alguns fortes argumentos para olhar com simpatia para o Caribe. A propósito de júri, o de longas-metragens em 35 milímetros apresenta os nomes de Mario Levin, cineasta argentino; Lisandro Naranjo, cineasta colombiano; Reynaldo Gonzales, diretor da Cinemateca de Cuba; Pedro Alberto Bandeira Freire, poeta e cineasta português; Ricardo Casas, coordenador da Cinemateca do Uruguai; Román Chalbaud, cineasta venezuelano; Wilson Cunha, diretor do Núcleo de Entretenimento da Globosat (canais Multishow e Bravo); Tuio Becker, crítico de cinema do jornal Zero Hora; e Aracy Esteves, atriz gaúcha.





