O cinema globalizado em Cannes
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sexta-feira, 09 de maio de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
CANNES - São 680 filmes, entre as mostras diversas e o Mercado Internacional do Filme. São 4 mil jornalistas e mais outros 4 mil agitadíssimos homens de negócios tentando comprar e vender os milhares de produtos que vão estar nas telas de todo mundo, nas próximas temporadas. Gravitando ao redor dessa equação (produção, primeira exibição, compra, venda) já aparecem por aqui também os homens de marketing. Na verdade é uma operação muito bem orquestrada, que não deixa muitas dúvidas sobre o rendoso business em que se transformou o cinema mundial. Há, é claro, o glamour , que ninguém é de ferro. Este ainda resiste, bastante alterado por uma série de circunstâncias. Mas resiste, e a maior prova é este 50º Festival de Cannes, que diariamente ocupa boa parte das primeiras páginas dos principais jornais europeus. Já o Brasil, bem, o Brasil por enquanto continua um discreto comprador, através de diversos grupos que todos os anos visitam os grandes festivais (Playarte, Paris, Pandora) para tentar dividir uma fatia do mercado interno com as major norte-americanas. Aliás, todas ocupando o espaço mais nobre da Croisette numa espécie de supermercado de luxo, onde também funciona o princípio do mercado futuro - idéias que provavelmente renderão fortunas nas telas também estão à venda. E por que não?
Elemento sem coração Já é praxe nos grandes festivais uma abertura cinematográfica comme il faut , que faça barulho e atraía muita atencão. Para essas ocasiões a convocação natural é dirigida a Hollywood, mas este ano coube aos franceses a honra da abertura, não sem abrir mão da cavalaria, leia-se Bruce Willis. Produzido pela Gaumont a um custo de US$ 90 milhões, O Quinto Elemento conseguiu seu intento principal, isto é, monopolizar a mídia.
Dirigido pelo francês Luc Besson, o filme em momento algum perde de vista suas mais variadas fontes de inspiração - a saber, as trilogias completas de Guerra nas Estrelas, Indiana Jones e Duro de Matar, além de claras influências dos comics . A história é nossa velha conhecida: a eterna luta do Bem contra o Mal, e se passa no ano de 2214. A Terra está ameaçada de destruição e o tal quinto elemento pode salvar a humanidade. Desde que, claro, o taxista e ex-agente especial Bruce Willis possa dar uma mãozinha. Divertido, mas um filme sem emoção verdadeira. Notável a última geração de efeitos e o desenho de produção futurista com o toque do estilista Jean-Paul Gautier. O público brasileiro já tem data marcada para conferir o filme: a partir de sexta-feira O Quinto Elemento entra em circuito nacional, com direito a presença de Besson.
Estréia de Oldman A seleção oficial do 50º Festival de Cannes está com quatro primeiras obras, e entre os estreantes estão dois dos melhores atores do momento, Gary Oldman e Johnny Depp. O filme de Depp, The Brave, tem sua primeira exibição hoje. Já o filme de Oldman (o Drácula na versão recente de Coppola) foi razoavelmente bem recebido. Mas merecia mais calor da platéia. O título é Nil by Mouth, literalmente Nada pela Boca.
Em uma Londres contemporânea, família se desestrutura em função de drogas, álcool e violência. De uma maneira simplista, o filme é isto. Mas é de fato uma catarse, uma jornada autobiográfica de Oldman a procura de um ajuste de contas com o pai. Durante a coletiva, o ator revelou que é difícil uma obra artística não projetar informações autobiográficas de seu autor. Disse ainda que é ex-alcoólatra, e que viveu algumas das experiências vistas no filme. O elenco de Nil By Mouth é extraordinário e o filme, apesar de desgastante e incômodo na maioria do tempo, sustenta o interesse. Pontos para Gary Oldman, que fez um estréia de respeito.
Já o veterano Marco Bellochio apresentou Il Principe di Homburg, baseado em texto teatral de Heinrich von Kleist. Bellocchio anda precisando fazer as pazes com o sucesso, depois de alguns desastres recentes, como Il Sogno Della Farfalla, apresentado há dois anos no Festival de Gramado. Embora superior, ainda não vai ser desta vez. Ultimamente fascinando pela psicanálise, que trocou pela ideologia, Bellochio lança mão de uma história que mistura honra, militarismo e zonas sombrias da mente. O filme é correto, bem feito mas sem garra.


