Um dos motivos de orgulho de boa parte da platéia londrinense é considerar-se privilegiada quanto à grade de programação confeccionada pelos exibidores. O raciocínio procede, em termos. A grande maioria dos títulos em circuito nacional - leia-se apenas os comercialmente ativos - de fato chega simultaneamente às principais capitais do país e às salas locais, em demonstração evidente de que o retorno de bilheteria vem funcionando tranquilamente como uma espécie de retroalimentação: enquanto houver resultado compensador para os distribuidores, o espectador/consumidor final vai ter por aqui sua recompensa atualizada (às vezes até antes de boa parte do planeta), seja sob a forma anabolizada de um Schwarzenegger, seja pela escultura longilínea de uma Nicole Kidman.
É por isso que o aparecimento de duas estréias atrasadas e débeis como ‘‘A Casa de Vidro’’ e ‘‘Amor aos Pedaços’’ (veja a programação de cinema nesta página) causa constrangimento, porque além de estatura mínima, ambas estão preenchendo espaços que poderiam, por méritos, estar entregues a ‘‘Entre Quatro Paredes’’, o belo e independente azarão que concorre ao Oscar de melhor filme, e a ‘‘Abril Despedaçado’’, de Walter Salles, ou ainda ao ‘‘Apocalypse Now Redux’’ de Coppola, que o público de Curitiba e Maringá já conferiu.
Como sugere o duplo sentido do título original, a ação de ‘‘The Glass House’’ se desenrola numa verdadeira mansão de vidro, de propriedade do casal Glass. A residência isolada e suntuosa, de audaciosa arquitetura, universo fechado e sofisticado debruçado sobre Malibu, é a vedete metafórica desse suspense. Através de suas divisórias envidraçadas, cada personagem, acreditando-se invisível, espia o outro. Tudo gravita em torno de uma adolescente de 16 anos, Ruby (Leelee Sobieski, a ninfeta que Kubrick colocou na loja de fantasias em ‘‘De Olhos Bem Fechados’’, ou se preferirem, a ‘‘Joana d’Arc’’ de Christian Duguay). Depois de perder os pais num misterioso acidente automobilístico, ela e o irmão Rhett (Trevor Morgan) vão morar com um casal amigo da família, os Glass, Terry (Stellan Skarsgard, ator-fetiche de Lars von Trier) e Erin (Diane Lane). Nuvens sombrias logo aparecem no horizonte. E alguns fatos chegam ao conhecimento da platéia: o casal de irmãos herdou 4 milhões de dólares dos pais; Terry deve soma considerável a alguém da máfia, além de nutrir especial fascínio pelos seios da garota; Erin, que é médica, tem um sério problema com drogas.
Desde muito tempo, filmes como ‘‘A Casa de Vidro’’ tentam criar sua eficácia baseada numa antiga manobra de narrativa, oscilando entre a suspeita e o conhecimento, entre a possibilidade da descoberta e a ambiguidade de informações fornecidas ao espectador. Se é verdadeiro que toda ficção é somente uma máquina produtora de efeitos narrativos progressivos, então a qualidade de uma história de mistério será sempre diretamente proporcional ao atraso com que essas informações sobre o ‘‘mistério’’ chegam à usina de processamento cerebral da platéia. Mais a solução é lenta e dilatada, mais a empresa será bem sucedida. Quem administra a narrativa teria a obrigação de tecer uma trama contraditória, de manter em constante equilíbrio o número de pistas reais e falsas. Em outras palavras, a tarefa de criar um labirinto com o objetivo de ofuscar o sentido de orientação do espectador e de estender a sombra da dúvida o mais longamente possível. No vértice de tal arquitetura, os modelos mais reconhecíveis são alguns marcos hitchcockianos e outros de assinatura não tão ilustre mas igualmente eficazes, como ‘‘O Bebê de Rosemary’’e ‘‘O Inquilino’’, de Polanski. ‘‘A Casa de Vidro’’ torna-se aflitivo justamente por um problema de ‘‘resistência’’. Desde o instante em que Ruby coloca os pés na casa não resta nenhuma dúvidas: o casal de tutores são de fato tipos suspeitos, com tudo tramando contra eles.
‘‘The Glass House’’ tem um belo título, por sua sutileza que sugere um jogo de palavras entre o nome do casal, o material que predomina na construção e o tema da ‘‘transparência’’ que passeia pelo filme. Mas este é apenas o único elemento de preciosismo que o filme contém. Atrasado pelo menos trinta anos, encaixotado num roteiro que exala mofada previsibilidade, ‘‘A Casa de Vidro’’ é produto ideal para a garotada já acostumada a qualquer arremedo de horror, mas sempre aterrorizada diante de qualquer esforço de imaginação (o irmão menor de Ruby, imerso nos videogames, é o próprio emblema). Em tempo: o diretor, de citação opcional, é Daniel Sackheim, migrante da telinha onde realizou muitos ‘‘X-File’’ e ‘‘NYPD Blue’’.
Em sala vizinha a ‘‘The Glass House’’ instalou-se mais uma comédia romântica,
‘‘Amor aos Pedaços’’ (Love and Sex). Numa pílula: jornalista especializada em...amor e sexo tem que escrever um guia para a mulher solteira. Mas ela mesma não resolveu suas ligações afetivas, e é isso que o filme vai contar em flashback, desde o primeiro namorado que a abandonou no playground de sexta série até o experiente professor de francês, passando pelo casamento com o agora apenas amigo Adam. Bons temas em mãos adequadas, o amor e o sexo do título original acabam mesmo aos pedaços pela incúria da diretora-roteirista Valerie Breiman. A exemplo do suspense ‘‘A Casa de Vidro’’, este é outro filme já visto e revisto, outro título a acrescentar na coleção de inutilidades que infestam as salas daqui e de qualquer lugar.

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