O cinema em primeiro plano
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de janeiro de 2002
Rodrigo Souza Grota 
Avenida Tiradentes, 501, edifício Twin Towers. As torres gêmeas de Londrina em um primeiro olhar não trazem nenhum indício de que uma equipe de produção de cinema está a todo vapor à espera dos primeiros registros de uma Londrina ainda infante, aquela dos anos 30. Em meio a produtores, estagiários e diretores, uma jovem carioca de 22 anos, que praticamente nasceu em meio a películas, permanece em seu ofício diário há cerca de dois meses. A nova cineasta é Maria Clara Costa, assistente de direção de Tizuka Yamasaki no segundo episódio que a diretora dedica às relações entre Japão e Brasil - Gaijin 2.
Maria Clara integra a equipe que auxilia Tizuka diretamente em questões relacionadas a roteiro, atores, cenários, tudo que possa interferir no resultado final de um filme. Trabalhar como assistente de direção é um primeiro passo para o cinema, regra comprovada por diretores como Luchino Visconti, Federico Fellini, Frederic Wilhelm Murnau, Carl Theodor Dreyer, Michelangelo Antonioni e tantos outros. Visconti, por exemplo, trabalhou como assistente de Jean Renoir. E até mesmo a própria Tizuka começou ajudando diretores, incluindo Glauber Rocha em A Idade da Terra e Nelson Pereira dos Santos em Tenda dos Milagres.
Mas o caso de Maria Clara é diferente. Em suas próprias palavras, ela foi um bebê de set - com 17 dias já participava de um comercial da Johnson & Johnson. Pouco depois, figurou em Gaijin - Caminhos da Liberdade. Mas como ela participou de filmes ainda tão nova?
O cinema, no caso de Maria Clara, é doença de família. Seus pais, Zezé DAlice e Juarez Dagoberto, são diretores de som. Já participaram de filmes importantes em nossa cinematografia, caso de Macunaíma, a visão que Joaquim Pedro de Andrade teve da obra homônima de Mário de Andrade no fim dos anos 60.
A jovem diretora conta que desde pequena viveu entre produções: Eu passei toda a minha infância acompanhando filmagens. Eu adorava. Em todos os filmes em que meus pais trabalhavam eu também estava. Mas daí, quando eu tinha 16 anos, decidi parar. Não queria mais participar de nada ligado a cinema. Na verdade, eu não queria saber de nada. Maria Clara começou a se desentender com seus pais, que logo decidiram castigá-la - ela teria de acompanhá-los na gravação dos 40 episódios de A Vida Como Ela É..., série dirigida por Daniel Filho em 1995-96 que acabou resultando em uma primorosa adaptação do universo de Nelson Rodrigues.
Antes da experiência com Daniel Filho, Maria Clara já havia passado três anos em Miami, Flórida. Por essa época, ela começou a ficar um pouco receosa, mas topou trabalhar como assistente da continuísta Fernanda Borges em outra série da TV Globo, A Justiceira, estrelada por Malu Mader e dirigida por Filho. Assim como A Vida Como Ela É, A Justiceira também era rodado em 35 mm, o que imprimiu uma qualidade de imagem a esses programas infinitamente maior do que a geralmente apresentada pelas telenovelas da Globo. Clara trabalhou também como assistente de direção em O Menino Maluquinho 2, de Fernando Meirelles, no seriado Mulher, novamente com Filho, e em peças publicitárias: Aproveitei essas experiências para aprender tudo sobre lentes, câmeras, fotografia, tudo que era ligado a cinema.
Eis então que a vida da jovem diretora toma um rumo inesperado. Em uma viagem de férias a Nova York, ela reencontra um companheiro de trabalho, Stu Deutch, o diretor de som de Verão de Sam, penúltima obra de Spike Lee. Deutch a convida para visitar um dia no set de filmagem. Ela topa. Durante uma cena, Lee detecta uma estranha em seu set e vai descobrir a identidade da intrusa. Em poucos minutos de conversa, ele a convida para trabalhar no filme junto à equipe de assistentes de direção - ela teria de ajudar os atores. A resposta é um pouco óbvia - ela não recusou. Ele me disse que enxergava em mim o Spike Lee de dez anos atrás.
No começo ela ficou um pouco tímida, sou assim quando estou em filmagem de outro diretor, mas logo foi se soltando. O trabalho com Spike Lee, enfim, acabou sendo calmo: O set é muito organizado. É bem diferente do que acontece no Brasil. Lá existe uma equipe específica para cada coisa. E eles fazem exatamente o que se pede a eles. Um traço peculiar do diretor, observou Maria Clara, é o uso de várias câmeras para filmar uma cena, fazendo assim poucos takes: Ele usou quatro câmeras Panavision 35 mm, o que deve ter ajudado Lee na hora de montar o filme.
Após essa primeira experiência nos EUA, as portas se abriram a Maria Clara. Ela logo se matriculou no curso de cinema da New York University (NYU), faculdade em que se graduou há poucas semanas. E os convites para trabalhar foram surgindo em efeito cascata, possibilitando aprendizados preciosos à jovem diretora. Nesses últimos quatro anos, ela trabalhou em filmes como Ninguém é Perfeito, estrelado por Robert de Niro e dirigido por Joel Schumacher; Deptors, de Michael Caine, produção ainda não liberada para ser exibida nos cinemas; Eleições, de Alexander Payne, uma ótima produção da MTV Films; Disapeering Act, produção em 35 mm da HBO estrelada por Wesley Snipes; e alguns comercias de Spike Lee para a TV (ele dirige muitos). Mas os principais ensinamentos da jovem diretora vieram de um trio de diretores de Nova York, talvez os melhores que existem por lá: Martin Scorsese, Woody Allen e Spike Lee. Com o diretor de Taxi Driver, ela trabalhou por poucos dias em Vivendo no Limite, penúltimo filme de Scorsese, estrelado por Nicolas Cage. Aliás foi Cage que Maria Clara auxiliava durante as filmagens: Houve uma história que eu não presenciei, não sei se é verdade. Dizem que em uma das cenas, Scorsese começou a chorar do nada pois seus sapatos estavam desamarrados. Na NYU, Maria Clara pôde ter aulas de história de cinema com o cinéfilo Scorsese. Realmente um privilégio, já que o cineasta é um dos maiores estimuladores da memória cinematográfica em todo o mundo - além de produzir o documentário O Cinema Americano visto por Martin Scorsese, ele atualmente coordena a restauração de modestas produções italianas relegadas pelo tempo.
Com Allen a experiência foi mais breve, no decorrer das filmagens da comédia Small Time Crooks: Nesse filme eu trabalhei com o Michael Rapapport, ator que costuma trabalhar com Allen, Spike Lee. Mas não nos demos muito bem em um primeiro contato. Depois nos encontramos em uma boate e tudo bem.
A segunda e última parceria com Lee em um longa-metragem foi no revolucionário Bamboozled, que no Brasil foi lançado nos cinemas como A Hora do Show, um mergulho nas relações entre a mídia e o estereótipo comumente associado aos negros americanos. Essa foi a primeira produção totalmente digital do cinema americano, bem antes do Time Code, de Mike Leigh. Lee usou 11 câmeras digitais em cada cena. Ele adorou a facilidade do digital.
Apesar de as câmeras serem mais leves, o custo de produção diminuir consideravelmente, há uma grande perda quando se capta imagens no processo digital - não há mais profundidade de campo, recurso que Orson Welles usou e abusou em Cidadão kane e que, para o crítico de cinema francês André Bazin, seria a especificidade fílmica, aquilo que só um filme pode ter. Maria Clara concorda com o repórter sobre a perda de qualidade plástica no digital, e observa que Spike Lee não se preocupa muito com a imagem: Ele centra seu foco de atenção no conteúdo do filme. Quando você assiste a um filme dele, principalmente esse, você percebe muitas falhas técnicas, mas ele não está ligando. O processo de filmagem de A Hora do Show foi tão tranquilo que um dia de filmagem durava apenas cerca de uma hora e meia. No modelo tradicional, quando se utiliza a película, as filmagens costumam se estender por todo um dia.
Apesar de ter trabalhado com Lee, Scorsese e Allen, seu cineasta predileto é da nova geração de realizadores americanos - Paul Thomas Anderson, o inventivo criador de Boogie Nights e da obra-prima Magnólia. Entre as produções brasileiras bem aceitas nos EUA, cita Central do Brasil, de Walter Salles e Gêmeas, de Andrucha Waddington, o mesmo de Eu, Tu, Eles.
Após todo esse estágio com os mestres, Maria Clara decidiu se aventurar em um primeiro trabalho próprio. Ela realizou por meio de sua produtora Seven Seven Films, ao lado da sócia Kimberly Gray, o documentário Life of Christopher Street, uma produção digital que investiga os bastidores de uma das ruas mais movimentadas do submundo novaiorquino. Em alguns bares cheguei a usar câmeras pequenas para registar o que ocorria lá dentro sem que ninguém soubesse. Esse fim de ano ela passou no Rio de Janeiro, editando o documentário. Em Londrina, está com uma câmera digital. Ainda não conhece muita a cidade, mas avisa que se pintar uma idéia pode acabar fazendo algum outro filme em Londrina paralelo a Gaijin 2.
Mas após conhecer grandes cineastas em Nova York, por que ela veio trabalhar em Londrina? Maria Clara conta que havia reencontrado Tizuka, uma grande amiga, em Nova York em agosto do ano passado. Poucos tempo depois, perdeu muitos amigos no atentado terrorista de 11 de setembro. Resolveu voltar e ficar no Brasil por um período indeterminado.


