O cinema triunfa nas livrarias. Mais do que um ‘‘boom’’ passageiro, os títulos sobre a sétima arte infestam as prateleiras há mais ou menos uma década como um segmento estável na programação das editoras brasileiras.
O fenômeno abrange gêneros variados que incluem coletâneas de ensaios, dissertações acadêmicas, revistas de artigos, biografias, entrevistas com cineastas e até publicações na linha ‘‘veja-o-filme-leia-o-livro’’ com reproduções de roteiros.
ReproduçãoE agora, com a retomada do cinema nacional, esboça-se um frenesi editorial em torno do tema. Na semana passada, por exemplo, o livro O Cinema Brasileiro - de O Pagador de Promessas a Central do Brasil (Publifolha) teve sua primeira tiragem de 3 mil exemplares esgotada já no dia do lançamento.
ReproduçãoA mesma recepção é prevista para a Enciclopédia do Cinema Brasileiro, um alentado volume de 800 páginas e 729 verbetes organizado a quatro mãos por Fernão Ramos e Luis Felipe Miranda para a editora do Senac com lançamento anunciado para dezembro. Mas a vastidão temática suprida pela fornada de títulos vai além do cinema pátrio.
A começar pelo luxuoso volume Passado Imperfeito - A História no Cinema (Record), no qual um time de 60 autores aborda as relações entre as produções de Hollywood e os registros históricos investigando os filmes que abordaram fatos ou personagens reais nas telas. ‘‘Quem consegue esquecer Marlene Dietrich como ‘‘Catarina, a Grande?’’, George Scott como ‘‘Patton’’ ou Ben Kinsley como ‘‘Gandhi?’’ - pergunta, no texto introdutório, o organizador do volume Mark C. Carnes.
ReproduçãoO escritor Gore Vidal, um dos participantes da coletânea, sugere descartar o sistema educacional vigente e apresentar o passado aos jovens através do cinema. Ao longo do livro, quase 100 filmes passam pela análise dos convidados, incluindo o célebre ‘‘Todos os Homens do Presidente’’
Reproduçãoe o caso Watergate.
Este último, que talvez seja o filme sobre jornalistas mais citado em debates sobre o assunto, até que poderia figurar como tema de outro livro lançado recentemente: O Último Jornalista (Estação Liberdade), de Stella Senra. Nesta obra, a autora examina como a imagem do profissional de imprensa foi se construindo ao longo dos anos, especialmente em sua representação pelo cinema.
A discussão inclui filmes como ‘‘Blow Up’’ de Micheangelo Antonioni, ‘‘A Montanha dos Sete Abutres’’ de Billy Wilder e ‘‘A Gardênia Azul’’ de Fritz Lang. ‘‘Todos os Homens do Presidente’’ está ausente, o que se justifica com a explicação da autora, para quem o conjunto das obras analisadas não visou à totalidade da filmografia que traz jornalistas como persongens, mas à preferência pessoal.
Já, para a jornalista Maria do Rosário Caetano, a preferência pessoal não foi suficiente para incluir todos os nomes que gostaria em sua coletânea de entrevistas Cineastas Latino-Americanos (Estação Liberdade), que traz 24 diálogos com diretores, fotógrafos e um ator (o cubano Jorge Perugorría).
ReproduçãoHá depoimentos de, entre outros, Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Tomás Gutiérrez Alea, Gabriel Figueroa, Miguel Littín, Santiago Alvarez e Julio Garcia Espinosa. Lamentando a ausência no livro de cineastas do porte de Luiz Puenzo (detentor do único Oscar atribuído, até hoje, a um filme - ‘‘A História Oficial’’ - produzido no continente), Jorge Sanjinés e Alejandro Agresti, a autora sublinha na introdução que ‘‘a solução paliativa surgiu com o acréscimo de uma filmografia com 40 nomes’’.
De leitura mais árida, o volume Pré-Cinemas & Pós-Cinemas é o título mais ‘‘teórico’’ de toda a leva de lançamentos. É mais uma contribuição especulativa de Arlindo Machado, um dos mais estimulantes pensadores brasileiros das novas tecnologias. Com outros livros publicados no currículo, todos explorando o universo das chamadas ‘‘imagens técnicas’’, ele já organizou mostras de arte eletrônica, dirigiu curtas-metragens e trabalhos de multimídia em CD-ROM.
Nesta última empreitada, Machado se lança a uma revisão histórica do passado do cinema e indaga sobre o futuro da sétima arte repousando suas apostas nas experiências estéticas que fundem cinema e vídeo. ‘‘A rigor, o único realizador que está realmente investigando as alternativas de uma nova estética diante dos desafios lançados pela alta definição é o polonês Zbigniew Rybczynski’’ - diz ele em um dos capítulos.
Também repercutindo o filão editorial, chega ao público mais uma revista especializada reunindo reflexões teóricas, análises de filmes e entrevistas com cineastas. Estudos de Cinema saiu das salas do curso de Comunicação e Semiótica da PUC, de São Paulo. Nasceu com a ambição de, segundo o texto introdutório, ‘‘extrapolar os limites acadêmicos e participar do debate nacional e internacional sobre a produção e a teoria do cinema’’.
A revista é editada por Lúcia Nagib e traz entre os membros do conselho editorial a cineasta Tata Amaral. O recheio inclui um depoimento do diretor Carlos Reichenbach, que trata justamente do tema da retomada do cinema nacional, além de reflexões sobre as obras do cineasta japonês Kengi Mizoguchi e do crítico francês André Bazin.
Outra publicação de alto nível que está com número novo circulando no mercado é Cinemais, editada no Rio de Janeiro. Entre os artigos reunidos constam ‘‘Inventar Narrativas Contemporâneas’’ de Ismael Xavier, ‘‘O Cinema Brasileiro Conteporâneo’’ de Katia Maciel e ‘‘do Nacional ao Transnacional’’ de Ivana Bentes. Difíceis de encontrar nas livrarias, as revistas podem ser encomendandas escrevendo diretamente para suas redações. Quem procura, acha, como sabem os cinéfilos sedentos de informação.



IMAGEM E SEMELHANÇA
A fidelidade do cinema aos fatos reais é explorada no livro ‘‘Passado Imperfeito - A História no Cinema’’, organizado por Mark C. Carnes. A semelhança entre os personagens históricos e os atores em cena demonstram a preocupação de transpor, em detalhes, a realidade para as telas




Bonnie Parker, da dupla lendária Bonnie e Clyde, em foto dos anos 30 (à esquerda) e a atriz Faye Dunaway fazendo o papel no cinema
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Estátua de Moisés de Michelangelo e Charlton Heston na pele do personagem em ‘‘Os Dez mandamentos’’: semelhança impressionante
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Quadro de Ana Bolena, uma das esposas de Henrique VIII, e a canadense GeneviSve Bujold que a representou no cinema: até o colar foi copiado
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