O cinema como tema do Enem
Profissionais do cinema comentam o tema da redação do Enem este ano e apontam meios de democratização do acesso à arte
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de novembro de 2019
Profissionais do cinema comentam o tema da redação do Enem este ano e apontam meios de democratização do acesso à arte
Marcos Roman - Grupo Folha 
A sétima arte foi o assunto mais comentado em todo o país na tarde de domingo (3) desde que foi divulgado o tema da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2019. Mais de 5 milhões de estudantes tiveram que argumentar sobre a "Democratização do acesso ao cinema no Brasil". A temática que pegou de surpresa os que se prepararam para falar de questões mais polêmicas foi aprovada por profissionais de Londrina ligados ao setor audiovisual.
O texto de apoio da prova trouxe algumas informações para facilitar a argumentação dos estudantes. Dentre elas dados que mostram que enquanto 88% dos telespectadores assistem a filmes regularmente pela TV, apenas 17% da população frequenta as salas de cinema. Outra informação fornecida é que o Brasil, que já teve cinema em 80% das cidades do interior, atualmente concentra a maioria das 2,2 mil salas de exibição em shoppings que atendem as áreas de renda mais alta das grandes cidades.
O presidente do Arranjo Produtivo Local (APL) do Audiovisual de Londrina, Guilherme Peraro, ressalta que além da falta de salas no interior do país, é preciso encontrar uma maneira de viabilizar o acesso da população de baixa renda às salas de cinema já existentes. “O ingresso ainda é muito caro. Há promoções de ingressos a R$ 7 a R$ 8 reais durante a semana, mas esse desconto não chega a atingir as classes D e E. Na própria prova havia um dado informando que 17% da população vai ao cinema regularmente. É um índice baixo, o setor tem potencial grande para crescer e é economicamente viável, pois a demanda existe. As pessoas querem assistir filmes, basta ver os altos índices de pirataria de TV a cabo de download de filmes de internet, o que inviabiliza a ida ao cinema é preço dos ingressos”, aponta.

Na avaliação dele - que há 21 anos atua no setor como produtor, roteirista e diretor - deveria haver políticas públicas e projetos que ajudassem a baratear os ingressos. “Existem trabalhos em relação a isso, como o SP Cine, que leva cinema para as periferias de São Paulo com ingressos a R$ 1 ou R$ 2. Aqui em Londrina, a Kinupus [produtora londrinense da qual é sócio-fundador] desenvolveu entre os anos de 2004 e 2005 o projeto Mapa Piá, que em parceria com a prefeitura levou cerca de 5 mil crianças e adolescentes para o cinema. Cerca de 70% delas nunca tinha entrado numa sala de exibição”, exemplifica.
Peraro salienta ainda que a democratização do cinema deve incluir todas as etapas da produção cinematográfica. “As pessoas têm que entender que o cinema é uma arte cara, realmente falta essa democratização não só no acesso à sala, mas também em relação à produção. Muita gente do interior do país tem vontade de estudar cinema, mas são poucas as faculdades que oferecem o curso. Eu mesmo passei por isso. Nasci em Marília (SP) e por falta de opção acabei estudando engenharia”, comenta.
O presidente do APL do Audiovisual de Londrina avalia como extremamente positivas as discussões geradas pelo tema da redação do Enem neste ano. “Esse tema ainda vai gerar bastante conversa entre os alunos, não só em relação ao cinema, mas em torno da cultura de uma forma geral", acrescenta.
Tema abrangente
O debate em tono do cinema também agradou o premiado cineasta londrinense Rodrigo Grota. “A prova do Enem levantou uma reflexão entre milhões de jovens que tiveram a oportunidade de perceber que o cinema está ligado não apenas ao universo cultural, pois é um tema que permite diversas leituras. A prova mostrou que o cinema também pode ser usado para fazer reflexões políticas, sociais e econômicas”, argumenta.
Dentre os caminhos para a democratização do acesso ao cinema, Grota aposta na criação de circuitos alternativos de exibição. “Há tempos são produzidos mais de 100 longas-metragens no Brasil a cada ano, porém existe uma dificuldade de levar essas produções até o público. Cito como exemplo o filme Leste Oeste [dirigido por ele e produzido em Londrina], que desde que estreou este ano só foi exibido em Londrina, Maringá e Ponta Grossa. Precisamos contar com a ajuda do Estado para criar espaços alternativos de exibição, como em escolas e outros locais, por exemplo. Seria uma forma de garantir o acesso de produções paranaense em cidades do interior”, afirma o diretor que já ganhou mais de 50 prêmios entre festivais nacionais e internacionais.


