Real antecipação do cinema do futuro, o lançamento nacional ''G. I. Joe: A Origem de Cobra'' é com certeza o filme mais parecido com um videogame até agora realizado - mas não será por muito tempo. Como nesses jogos, a pedra fundamental dessa nova saga de ação prescinde de cenas de transição. De ponta a ponta, tudo o que existe visível e audível é uma cena de ação amontoada sobre outra. Quase todas são tão confusas que a única coisa que se pode entender é que uns personagens se enroscam com outros, em algum lugar e por algum motivo. Isto é talvez produto da suposição (creio que acertada, mesmo sem ser oráculo) de que ao público já não interessa mais o quê, como, onde e por que, mas tão somente montar na onda, sacolejar e sair dela depois de um par de horas com a cabeça como se fosse um mingau.
Na natureza deste tipo de cinema nada se cria, mas tudo se transformers. ''G. I. Joe'' surge de um simples bonequinho da empresa Hasbro. Neste caso é um mercenário assassino, de metralhadora em punho e faca estilo Rambo. Maravilha do ''project design'', o modesto brinquedo de plástico virou, mutatis mutandis, esta superprodução milionária. Em ''A Origem de Cobra'', o virtual ininterrupto substitui e eventualmente vampiriza o mundo real. Tal como ocorre nos videogames.
Há uma Paris digitalizada que serve de telão de fundo para saltos, perseguições, tiroteios e choques de veículos. Há também um Pólo Norte fake, desertos imprecisos, naves aéreas e submarinas computadorizadas e imagens holográficas. E sobretudo umas partículas infinitesimais chamadas ''nanomitas'', capazes de converter a Torre Eiffel em pó verde.
O que afinal ocorre em ''A Origem de Cobra''? Acontece de tudo, e a rigor não acontece nada. Basicamente, um exército de superssoldados ''bons'', recrutados por um ex-general (Dennis Quaid), tenta impedir que outro, que opera a serviço do chefão de uma corporação armamentista (Christopher Ecclestone), desencadeie um desastre ''nanomítico''.
Segundo a cartilha do roteirista-robô desta Hollywood biônico-contemporânea, há um recheio de fundo hipertrofiado com personagens, subtramas e peripécias. Há um herói-galã (Channing Tatum), uma vilã tecno-sexy (Sienna Miller), o palhaço habitual (Marlon Wayans). Também não falta o presidente dos EUA (Jonathan Price). O diretor, Stephen Sommers, que nos tempos da primeira ''Múmia'' sabia imprimir humor, paródia alegre e espírito de aventura, parece aqui perdido a ponto de narrar tudo com uma solenidade sempre a um passo do ridículo. E às vezes até chega lá. (C.E.L.J.)

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