O cinema aprendeu a falar há 70 anos
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de outubro de 1997
Ranulfo Pedreiro Londrina 
ReproduçãoA estréia de O Cantor de Jazz trouxe a novidade do cinema sonorizado, encantou multidões e faturou mais de US$ 3 milhõesDesde a invenção do cinematógrafo dos irmãos LumiSre que o cinema se esforçava para driblar o silêncio. A idéia da sonoridade simultânea às imagens foi refutada por vários cineastas e perseguida obsessivamente por outros. Quando O Cantor de Jazz estreou, em 6 de outubro de 1927 - há exatos 70 anos, embora alguns apontem a estréia no dia 8 de outubro - trazendo o som acoplado com perfeição às imagens, foi como um rolo compressor a esmagar o cinema mudo - que tentou sobreviver, mas sucumbiu à indústria - e alucinar produtores, diretores e estúdios.
Um ano depois do surgimento do cinematógrafo, as técnicas ainda rudimentares do cinema já sofriam adaptações que procuravam a reprodução simultânea de imagem e som. O grafofonoscópio, por exemplo, foi criado em 1896 pelo francês Auguste Baron. Mas som e imagens não eram tão simultâneos quanto se esperava e a qualidade da reprodução era duvidosa. Enquanto isso, a linguagem cinematográfica se aperfeiçoava no silêncio das imagens e atraía mais e mais pessoas às salas de exibição.
Por isso o mundo se espantou quando Al Jolson interpretou e cantou sem problemas em O Cantor de Jazz. Jolson - seu nome verdadeiro era Asa Yoelson - era filho de um cantor russo de sinagoga que se mudou para os Estados Unidos. Sua vida mantinha grandes semelhanças com o roteiro de O Cantor de Jazz. O filme narra a história de um judeu que, por desejo paterno, deverá cantar em sinagogas até a morte. O rapaz prefere se enveredar pelo jazz. Após a morte do pai o cantor se arrepende e entoa uma composição fúnebre em uma sinagoga. Um dramalhão com fortes relações familiares, apto a agradar platéias de vários países.
Mas o caminho até o som foi tortuoso. Inúmeras máquinas foram desenvolvidas e registradas, mas as falhas permaneciam: falta de qualidade sonora e sincronização. As bocas se movimentavam na tela, mas a voz chegava antes ou depois, e às vezes era alta demais, baixa demais ou inaudível.
Os pioneiros tentaram de tudo. Usaram gramofones e até colocaram atores atrás das telas, numa tentativa de dublagem ao vivo. Edison, que há tempos se interessava pela captação e reprodução da imagem em movimento, também trabalhou com a sonorização, e chegou a apresentar uma encenação audiovisual de Júlio César, de Shakespeare, em 1913.
Mas a sonorização enfrentava resistência nos grandes estúdios. A adaptação necessária para o som - substituição de projetores, alterações em técnicas de filmagem e gastos com o processo - era desestimulante. Só a Warner aceitou a hipótese. Um dos donos do estúdio procurou a Western Eletric, uma empresa que garantia ter tecnologia para lançar um longa-metragem falado. O aparelho era o Vitaphone. A primeira demonstração veio em 1926, com Don Juan. A Fox resolveu correr atrás do tempo perdido e apresentou, no ano seguinte, The Seventh Heaven, que trazia apenas música sincronizada com imagem.
A Warner, entretanto, já havia investido na história do cantor judeu. A fita trazia o roteiro de Samson Raphaelson e direção de Alan Crosnard. O Cantor de Jazz foi um sucesso. Em poucos meses faturou cerca de US$ 3 milhões. A cifra atraiu grandes investidores e as produções sonorizadas se multiplicaram.
A chegada do cinema sonoro foi traumática. O processo de produção cinematográfica se tornou confuso. Técnicos de som ganharam poder mudando cenários para ocultar microfones e direcionando o posicionamento dos atores. O recurso do som foi usado até a exaustão: ruídos, falas e músicas permeavam, do começo ao fim, as produções.
Os atores também suaram frio. Alguns astros interromperam a carreira por causa da voz. Escritores e roteiristas que trabalhavam desenvolvendo imagens foram substituídos por dramaturgos oportunistas e até os diretores de cinema foram ameaçados pelos de teatro. Na ânsia da novidade, várias peças foram filmadas.
Mesmo assim, alguns filmes tiveram resultados positivos, como O Anjo Azul, de Sternberg, e Alvorada do Amor, de Lubitsch. Aos poucos, o turbilhão gerado pela novidade foi assimilado, e o som passou a ser usado com bom senso. Com o passar dos anos, o cinema continuou a sofrer alterações. Mas o impacto de novas tecnologias na indústria cinematográfica nunca foi tão forte.


