ReproduçãoA estréia de ‘‘O Cantor de Jazz’’ trouxe a novidade do cinema sonorizado, encantou multidões e faturou mais de US$ 3 milhõesDesde a invenção do cinematógrafo dos irmãos LumiSre que o cinema se esforçava para driblar o silêncio. A idéia da sonoridade simultânea às imagens foi refutada por vários cineastas e perseguida obsessivamente por outros. Quando ‘‘O Cantor de Jazz’’ estreou, em 6 de outubro de 1927 - há exatos 70 anos, embora alguns apontem a estréia no dia 8 de outubro - trazendo o som acoplado com perfeição às imagens, foi como um rolo compressor a esmagar o cinema mudo - que tentou sobreviver, mas sucumbiu à indústria - e alucinar produtores, diretores e estúdios.
Um ano depois do surgimento do cinematógrafo, as técnicas ainda rudimentares do cinema já sofriam adaptações que procuravam a reprodução simultânea de imagem e som. O grafofonoscópio, por exemplo, foi criado em 1896 pelo francês Auguste Baron. Mas som e imagens não eram tão simultâneos quanto se esperava e a qualidade da reprodução era duvidosa. Enquanto isso, a linguagem cinematográfica se aperfeiçoava no silêncio das imagens e atraía mais e mais pessoas às salas de exibição.
Por isso o mundo se espantou quando Al Jolson interpretou e cantou sem problemas em ‘‘O Cantor de Jazz’’. Jolson - seu nome verdadeiro era Asa Yoelson - era filho de um cantor russo de sinagoga que se mudou para os Estados Unidos. Sua vida mantinha grandes semelhanças com o roteiro de ‘‘O Cantor de Jazz’’. O filme narra a história de um judeu que, por desejo paterno, deverá cantar em sinagogas até a morte. O rapaz prefere se enveredar pelo jazz. Após a morte do pai o cantor se arrepende e entoa uma composição fúnebre em uma sinagoga. Um dramalhão com fortes relações familiares, apto a agradar platéias de vários países.
Mas o caminho até o som foi tortuoso. Inúmeras máquinas foram desenvolvidas e registradas, mas as falhas permaneciam: falta de qualidade sonora e sincronização. As bocas se movimentavam na tela, mas a voz chegava antes ou depois, e às vezes era alta demais, baixa demais ou inaudível.
Os pioneiros tentaram de tudo. Usaram gramofones e até colocaram atores atrás das telas, numa tentativa de dublagem ao vivo. Edison, que há tempos se interessava pela captação e reprodução da imagem em movimento, também trabalhou com a sonorização, e chegou a apresentar uma encenação audiovisual de ‘‘Júlio César’’, de Shakespeare, em 1913.
Mas a sonorização enfrentava resistência nos grandes estúdios. A adaptação necessária para o som - substituição de projetores, alterações em técnicas de filmagem e gastos com o processo - era desestimulante. Só a Warner aceitou a hipótese. Um dos donos do estúdio procurou a Western Eletric, uma empresa que garantia ter tecnologia para lançar um longa-metragem falado. O aparelho era o Vitaphone. A primeira demonstração veio em 1926, com ‘‘Don Juan’’. A Fox resolveu correr atrás do tempo perdido e apresentou, no ano seguinte, ‘‘The Seventh Heaven’’, que trazia apenas música sincronizada com imagem.
A Warner, entretanto, já havia investido na história do cantor judeu. A fita trazia o roteiro de Samson Raphaelson e direção de Alan Crosnard. ‘‘O Cantor de Jazz’’ foi um sucesso. Em poucos meses faturou cerca de US$ 3 milhões. A cifra atraiu grandes investidores e as produções sonorizadas se multiplicaram.
A chegada do cinema sonoro foi traumática. O processo de produção cinematográfica se tornou confuso. Técnicos de som ganharam poder mudando cenários para ocultar microfones e direcionando o posicionamento dos atores. O recurso do som foi usado até a exaustão: ruídos, falas e músicas permeavam, do começo ao fim, as produções.
Os atores também suaram frio. Alguns astros interromperam a carreira por causa da voz. Escritores e roteiristas que trabalhavam desenvolvendo imagens foram substituídos por dramaturgos oportunistas e até os diretores de cinema foram ameaçados pelos de teatro. Na ânsia da novidade, várias peças foram filmadas.
Mesmo assim, alguns filmes tiveram resultados positivos, como ‘‘O Anjo Azul’’, de Sternberg, e ‘‘Alvorada do Amor’’, de Lubitsch. Aos poucos, o turbilhão gerado pela novidade foi assimilado, e o som passou a ser usado com bom senso. Com o passar dos anos, o cinema continuou a sofrer alterações. Mas o impacto de novas tecnologias na indústria cinematográfica nunca foi tão forte.

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