Quem assistiu o filme ''Bastardos Inglórios'' bem se lembra que parte da trama envolveu a importante estreia de um filme produzido por uma estatal alemã. O envolvimento entre a classe artística e política era grande, assim como a atenção com relação ao conteúdo e a qualidade do material que dali saía. E muitos dos trabalhos, pouco conhecidos, censurados pelo governo ou esquecidos, poderão ser vistos nesta semana, na mostra ''Atrás do Muro Havia Cinema'', no Teatro da Caixa, em Curitiba.
''É um acervo riquíssimo de filmes, que, apesar da minha instrução, nunca tinha ouvido falar'', conta a curadora da mostra, a pesquisadora Betch Cleimmam. O projeto tem no programa 12 filmes produzidos entre 1946 e 1990 pela estatal alemã Deustche Film AG (DEFA), que construiu grandes estúdios, até hoje utilizados.
O início da mostra coloca em destaque as preocupações estéticas e ideológicas, além de promover uma discussão sobre os padrões de consumo em um país que estava se reconstruindo no período pós-guerra. ''A produtora começa a funcionar no final da 2º Guerra Mundial, quando Berlim está destruída'', comenta Betch. ''Essa vertente de filmes antifascistas faz a gente aprender a pensar a resistir à sociedade fascista de consumo.''
O primeiro filme da mostra, ''Quem ama a terra'' (Wer die Erde Liebt, de 1973), por exemplo, é um documentário que mostra os pensamentos de uma juventude progressista e antiimperialista. ''Esse filme exemplifica bem como essas questões foram sumindo com o tempo. E podemos perceber bem como ali havia um noção muito grande do bem coletivo, ao invés de somente o indivíduo'', destaca Betch.
Com ''Sete sardas'' (Sieben Sommersprossen, de 1978), Betch aponta um importante paralelo entre as produções da DEFA e de Hollywood, com um olhar diferente sobre as produções por meio da cultura de cada país no contexto da Guerra Fria. ''É um filme de colônia de férias, que se fosse americano, seria mais sexualizado, com mais piadinhas. O 'Sete sardas' mostra a disciplina socialista e a sexualidade vista de forma mais simples.''
A programação também traz produções que mostram as evidentes brigas entre os burocratas e os artistas, além da censura do período. Os filmes e a história da DEFA devem ser devidamente comentados pelo historiador de cinema e membro do comitê de seleção internacional do Festival de Berlim, o alemão Ralf Schenk. ''Mas vai depender da disponibilidade dos voos, devido aos problemas com o vulcão na Islândia. Ele (Ralf) nunca veio ao Brasil e quer muito ouvir a opinião dos brasileiros'', diz Betch.
Como o próprio nome da mostra diz, o objetivo principal é quebrar paradigmas criados pela Guerra Fria e que ainda hoje habitam o insconsciente coletivo do público. ''Queremos sair do universo mental da Guerra Fria, que, com a queda do muro, colocou uma 'versão do vencedor' e apagou tudo o que vem do Leste, dizendo que nós somos bons e eles são horríveis. Sair dessa postura maniqueísta da ditadura brutal do capitalismo'', critica a curadora. ''Queremos que as pessoas abram os olhos e aprendam a viver e pensar por si mesmos, saindo um pouco dessa lógica massificante e massificadora que vivemos atualmente.''
Serviço
- Atrás do Muro Havia Cinema
Quando - De hoje até o dia 25 de abril, de terça a sexta-feira, às 15h, 17h30 e 20h; aos sábados e domingos às 13h, 15h, 17h30 e 20h.
Onde - Teatro da Caixa (R. Conselheiro Laurindo, 280), em Curitiba
Quanto - Entrada franca, com ingressos distribuídos uma hora antes de cada sessão. Não recomendado para menores de 12 anos
Mais informações - (41) 2118-5111 e pelo site www.caixa.gov.br/caixacultural.

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