O Cinéfilo Fiel
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 08 de dezembro de 2016
O Cinéfilo Fiel Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

E de volta ao belo filme que merecidamente alcança uma terceira semana. Em meio à múltipla sugestão de temas que "A Chegada" oferece, um deles - justamente o que fala sobre livre arbítrio e responsabilidade pessoal - parte de uma pergunta que a linguista Louise (Amy Adams) faz ao futuro marido, o físico Ian Donnelly, no decorrer da trama: "Se você pudesse ver toda a sua vida disposta diante de você, você mudaria as coisas ?" Dito de outra maneira: você roubaria alguém de sua existência, e mesmo do tempo compartilhado com esta pessoa na Terra, se você soubesse que um dia esta pessoa sentiria dor e você sentiria sua perda ?
A pergunta assombra a narrativa porque Louise está guardando um terrível segredo. Ela sabe que sua filha Hannah vai morrer jovem. Ela sabe disso mesmo antes de conceber Hannah com Ian, o físico que anos antes a ajudou a decifrar a língua alienígena. Quando Louise diz a Ian que a filha deles vai morrer, ele obviamente fica mortificado, porque ele acha que ela podia tê-lo avisado ou se recusado a ter um filho, mudando assim o futuro. Mas Louise fez a escolha, mesmo sabendo o resultado final.
A compreensão de Louise sobre a linguagem escrita dos alienígenas heptápodes reorienta seu senso de causa e efeito. Ela transforma sua percepção do tempo em uma espécie de estrada de mão dupla que o roteirista (e autor do conto original) Ted Chiang e o diretor Dennis Villeneuve ilustram através de breves brechas que visitam a infância e a adolescência de Hannah no futuro, como se Louise estivesse prevendo todos os movimentos vitais de sua filha. Usando a teoria do mundo real da relatividade linguística que afirma, em viés de controvérsia, que a linguagem que falamos afeta o funcionamento do nosso cérebro , o filme transforma a vida de Louise em uma série de momentos fora de ordem que podem ser vivenciados em separado, inclusive a eventual morte de sua filha.
O filme sugere que saber o que vai acontecer no futuro não diminui o significado que há por trás de uma escolha que você fará hoje. Pelo contrário: ele informa que cada escolha que você faz pode ser feita sabendo que ativamente esta escolha irá formatar o que está por vir. Como já disse alguém, a vida é uma viagem, não um destino. Nas mentes circulares e não circulares dos alienígenas e de Louise, o destino nem sequer existe. "A Chegada", afinal, é também uma reflexão sobre o significado da escolha pessoal: prever uma escolha e, em seguida, torná-la real, não é crueldade do destino em ação, mas um poderoso exercício de livre arbítrio.
Os alienígenas de "Arrival", chegados à Terra em 12 monolíticas naves espaciais, tornam-se conhecidos e temidos como heptápodes devido à sua aparência sinistra de lulas gigantescas com sete pernas. Mas são pacíficos, e querem ajudar a humanidade, porque a sua própria percepção não linear do tempo diz que eles vão precisar de nossa ajuda daqui a milhões de anos. A jornada de Louise até a mente dos heptápodes como eles se comunicam, e o que isto pode dizer sobre como eles percebem a realidade poderia ser uma alegoria banalizada, mas o diretor Villeneuve a utiliza para subverter a burocrática e preguiçosa rotina dos blockbuster hollywoodianos.
É bom que se diga que Villeneuve nunca foi cineasta da leviandade ou da pressa. Sua ambição legítima é sempre a de revelar algo mais profundo sobre a existência humana.
Em "A Chegada", esta "verdade" está vinculada a dois enunciados centrais: de um lado, a celebração da comunicação como o fundamento político, moral e existencial da sociedade e da natureza humanas; por outro, o estudo da perda de um ser querido, temperado por equilibradas doses de romantismo e fatalismo. O filme deixa ótimos legados para reflexão. Entre outros, aquele de qualidades intrínsecas, que informa que nós, como humanos, somos feitos de nossas memórias e definidos por nossas escolhas. E aquele outro, tão necessário agora em tempos de bravatas populistas: uma otimista defesa do valor da linguagem e da comunicação como instrumento pacifista.


