Dori e nosso fundo do mar
17º longa metragem da grife Pixar, esta é a retomada das aventuras daquela animada e carinhosa turma submarina. É a quarta saga que alguns mestres da animação contemporânea consolidam, depois de "Toy Story", "Monsters" e "Cars". E Dori, quem é mesmo? Aquele adorável peixinho sempre às voltas com sua perda de memória de curto prazo. É ela quem assume aqui um protagonismo ingênuo e encantador, distribuindo lições de vida como a aceitação da perda, a superação dos próprios limites e a complexidade social e psicológica das novas modalidades familiares, multifacetadas e multifuncionais. Um filme infanto-juvenil com farto material para deleite (e reflexão) também dos adultos. Como abertura dessas férias coletivas, "Procurando Dori" oferece beleza e graça, atributos cada vez menos frequentes no cinema de hoje.
Quem está por trás de "Dori" é Andrew Stanton, o mesmo roteirista-diretor de "Nemo" – um dos maiores sucessos da Pixar. A expectativa que se criou nos 13 anos que separam os dois filmes valeu a pena: a esquecidinha Dori e o peixe-palhaço Marlin com seu filho Nemo (agora na condição de decisivos coadjuvantes) são os principais responsáveis pela eficácia da narrativa que não sofre um deslize sequer em seus fluentes 95 minutos. Stanton, que dirigiu ainda o charmoso e inovador "Wall-E", tropeçou feio em sua primeira ficção live action, "John Carter: Entre Dois Mundos". O fracasso o convenceu que seu lugar era mesmo na animação. Voltou a Pixar, que é uma espécie de "refugio" dos velhos e melhores – John Lasseter, Peter Docter, Brad Bird e Dan Scanlon – arquitetos de formas e histórias nos limites daquela que é considerada uma das mais recentes, criativas e definitivas revoluções do cinema.
Nesta segunda parte (ou spin off, não uma sequela), Stanton demonstra mais uma vez na animação a nada comum capacidade para utilizar a linguagem cinematográfica como transmissora de emoções. E de ideias, sem manejar fórceps para introduzi-las na cabeça do espectador, seja de que idade for. Ele sabe o que quer contar e não perde um só plano fazendo algo que não seja funcional a esta finalidade. Planejada a princípio como uma montagem paralela entre o passado e o presente da personagem, "Procurando Dori" avança sem pausar a ação.
O que não significa que confunda o espectador: pelo contrário, não hesita em colocar os conflitos que envolvem a história. E muito menos se excede em explicações retóricas, nem perde tempo em apresentar novos personagens e nem permite que eles abusem do discurso para tornar explícito aquilo que pode (e deve) ficar claro pela via da ação. Sim, "Procurando Dori" é portanto um filme de ação, não porque pertença estritamente ao gênero de correrias coreografadas e perseguições (embora contenha de ambas, de ótima qualidade), mas porque Stanton sabe que a ação é o centro nevrálgico do argumento.
Se em "Nemo" a aventura da busca que Marlin e Dori empreendiam ao procurar o peixinho capturado pelo pescador era muito mais uma desculpa para falar do valor das diferenças, da aceitação das limitações e dos vínculos familiares, em "Dori" a coisa caminha mais à frente na mesma direção, mas um pouco mais à frente...A aceitação da perda, a superação dos próprios limites e as novas inter-relações familiares são temas que percorrem esta nova aventura com reiterado sabor de novidade.
Há coisas ótimas no filme, como um divertidíssimo polvo mimético chamado Hank, e dois lobos marinhos, Fluke e Rudder. E uma espetacular cena de fuga que deve ter deixado muito blockbuster se roendo de inveja. Ou corado de vergonha. Valem as anedotas-citações do "Aliens" de James Cameron. E vale também não desmanchar os muitos prazeres do filme com spoilers. Boas férias a todos, de mãos dadas com as nadadeiras de Dori. Nas cópias originais, que não estão em nenhuma das salas da cidade, as principais vozes são de Ellen DeGeneres, Diane Keanon, Idris Elba e Albert Brooks. Assistam os créditos finais: ao fundo, há uma simpática cena. E antes de "Dori", a nova perola artística em curta metragem da Pixar, "Piper", história sem diálogos de um passarinho recém nascido que tem que aprender a ser alimentar à beira mar.

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