Um filme extraordinário
Em sua sétima edição - e praticamente sempre encerrando o primeiro semestre - o Festival Varilux cumpre anualmente o que promete: atualiza o panorama da filmografia francesa mais recente, satisfazendo o apetite de quem não se dá exatamente bem com o massivo cardápio importado dos Estados Unidos, veterano dono e senhor de nosso mapa de espaços exibidores. Quinze títulos inéditos não parece muito, perto do universo de títulos produzidos na França regularmente, e que faz do país o maior realizador europeu de filmes, mas a variedade de gêneros é um dos ingredientes cativantes. Há um senão nesta cesta de bondades: o tabuleiro de xadrez em que se transforma a programação de poucos dias e poucas sessões, além de salas alternadas. É preciso muita atenção e disponibilidade para datas, locais e horários, sob pena de levar um xeque mate.
Entre os melhores filmes do acervo 2016 está uma animação. E uma das exibições está apontada para hoje, 15h30, no Royal Plaza, mas não se informa se é cópia original com legendas ou dublada. Se com legendas, as vozes originais são de Marion Cotillard, Philipe Catherine e Jean Rochefort. "Avril et le Monde Truqué" ( Abril e o Mundo Extraordinário) é para crianças a partir de 6 anos e adultos. Estes, além de curtir, tem aqui a excelente oportunidade de mostrar a seus filhos como um thriller bem feito pode encorajá-los a desenvolver sua própria paixão cinéfila e sua criatividade.
Estamos em 1941, e o mundo nem de longe se parece com os relatos dos livros tradicionais de História. Quem reina na França é Napoleão V. Nos últimos 70 anos, em todos os lugares do mundo, as cabeças mais inteligentes desapareceram. A humanidade deixou de ter invenções. O mundo está submetido a uma tecnologia velha, ultrapassada. Os conhecimentos são aqueles adquiridos no século 19, aqueles da era pré-industrial, do carvão e do vapor. Não há rádio, televisão, aviação, eletricidade. É nesse ambiente que a garota Abril sai à procura de seus pais, casal de cientistas desaparecidos. Com ela embarcam na aventura seu gato falante, Darwin, e um vigarista das ruas, Julius. A finalidade é descobrir que fim levaram os cientistas, se foram sequestrados e por quem e por que.
Baseado em novela gráfica de Jacques Tardi, "Abril, ou o Mundo Extraordinário" estranhamente evoca um tempo perdido da animação – e dos contadores de histórias em geral, é bom ter isso em mente. É uma dinâmica aventura de ficção científica, animação bidimensional desenhada à mão, naquela mesma vertente do recente "Tomorroland" e de "Capitão Sky e o Mundo de Amanhã", de 2004, ambos porém realizados em live action.
Em sua abertura, o filme mostra o momento quando o progresso da humanidade muda para pior. Napoleão III morre não no exílio, mas num acidente. Segundo a premissa do autor da graphic novel, o imperador estaria brincando com as leis da ciência muito antes de Hitler, empregando um cérebro maníaco de nome Gustave (voz do grande Jean Rochefort) para criar um exército de soldados invencíveis. Com efeitos colaterais, é claro, como também fazer animais falarem. Quando o laboratório de Gustave pega fogo, duas criaturas-lagartixas escapam e mudam o curso da história. As transformações mundiais somente serão descobertas décadas mais tarde por sua neta Abril (voz de Marion Cotillard). São muitas as intercorrências e novidades a partir daí, inclusive com o engenheiro Eiffel , no cenário opressivo da Paris de 1941, construindo uma segunda Torre ao lado da primeira.
"Abril e o Mundo Extraordinário" está bem alimentado de soluções estéticas
vintage/retrô. E tem uma notável trilha sonora de Valentin Hadjadji. Mas o melhor personagem é mesmo o gato falante Darwin, fazendo as vezes do velho intelectual. Esses franceses sabem mesmo como homenagear seus bichanos.

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