O Cinéfilo Fiel
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 13 de abril de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Certa vez, em meados do século passado, o crítico de cinema Jean Douchet, um dos apaixonados escribas dos icônicos Cahiers du Cinéma, desferiu aquela que para mim é a mais certeira e vigente definição de crítica cinematográfica: "A crítica é a arte de amar. É o fruto de uma paixão que não se deixa devorar por si mesma, mas que aspira ao controle de uma vigilante lucidez. Consiste na busca incansável de harmonia no interior da dualidade paixão/lucidez". Reflexão e amor, portanto: a reflexão que traz a lucidez e a paixão que embasa o amor. Duas palavras, dois motores que movem toda cinefilia, todo exercício crítico que pode e deve ser considerado como tal.
Foi assim que comecei a aprender. Foi assim que iniciei minha escritura crítica há 45 anos, aqui mesmo, na Folha de Londrina, para onde estou de volta, não exatamente aquela do filho pródigo, mas consciente de que a tarefa ainda é árdua e que é preciso sempre combater o bom combate. Foi assim que continuo neste aprendizado sem fim, vendo e amando os bons filmes, agora mais e mais exercitando a tolerância diante da desastrosa diversidade dos maus. Mas o tempo, com a sapiência que é o melhor antídoto frente à mediocridade, é sempre o senhor mais justo e capaz de clarear o horizonte para estabelecer quem poderá ou não entrar para a posteridade. Refiro-me aos filmes, não aos críticos...
Bem, neste momento de retomada, e diante das estreias previstas para hoje no circuito local, um título desperta maior curiosidade. Chega uma nova versão, agora live action, de "Mogli, o Menino Lobo", recheada de efeitos. Felizmente a parafernália visual não comprometeu a sempre bela história (The Jungle Book) de Rudyard Kipling. Outro lançamento a verificar é "O Escaravelho do Diabo", filme brasileiro de aventuras explorando o filão infanto-juvenil, a partir de livro de Lucia Machado de Almeida. O gênero quase não tem a simpatia dos produtores brasileiros e, dependendo do resultado, o filme pode criar um nicho inédito de diversificação temática (e etária).
E hoje o Festival de Cannes revela suas listas de concorrentes às duas principais mostras competitivas, a da Palma de Ouro e do Certain Regard. Há uma boa chance de um filme brasileiro estar em uma delas: "Aquarius", segundo longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho, que há dois anos colheu as melhores críticas mundiais com "O Som ao Redor". Se classificado, vai representar também a reaparição de Sonia Braga na maior vitrine midiática do planeta.


