Atestando a proposta do recém-instalado grupo exibidor Cineflix na cidade, duas das novas salas – ainda com pequenos deslizes na projeção, mas nada grave – oferecem na estreia propostas alternativas que não ficam a dever ao rótulo. O hispano-argentino "Truman", do catalão Cesc Gay, é o mais interessante, apesar dos esforços da dupla Ethan & Joel Coen com o menos sucedido "Ave Cesar".

Recompensado com cinco troféus Goya (filme, direção, roteiro, melhor ator e ator coadjuvante), premio oficial do cinema espanhol, "Truman" é uma sensível, sutil e empática história sobre amizade e finitude. Sétimo trabalho de Gay (o penúltimo, "O Que os Homens Falam", foi exibido pelo Com-Tour em 2014), o filme evite todas as armadilhas da dramaturgia rasa e se entrega de maneira honesta e sem facilitações. Ricardo Darin e Javier Câmara, personagens e intérpretes principais, são absolutamente complementares e levaram sem problemas, além do Goya, o premio de melhores também no Festival de San Sebastián de 2015.

Julian (Câmara) mora no Canadá. Decide ir a Madri visitar o velho amigo Tomás (Darin), ator de cinema e teatro com os dias contados, vitimado por um câncer em estágio de metástase. Divorciado e com um filho universitário em Amsterdã, Tomás tem como única companhia um outro velho amigo, o cão Truman, para o qual pretende encontrar novo dono quando não puder cuidar mais do companheiro. Esta é a síntese do drama muito humano que se sustenta com rara dignidade no tema imperecível da amizade, temperado com linhas de humor que amenizam, sem comprometer, a aspereza da morte iminente.

Está tudo posto: os medos, os preparativos e as despedidas, arrumados em cenas emotivas dirigidas ao coração, mas sem o transborde, sem atingir níveis de comoção. A conexão com o espectador é obvia. Ele vai decalcando os personagens, avaliando o que significa o apoio humano e imediato. É um deixar-se ficar amavelmente, sem queixas, ao som de um silencio tão eloquente. Ninguém é perfeito. Muito menos neste momento. É um custo pesado, suportar a presença da morte. É penoso expressar a não conformidade com qualquer decisão que surja, proposta pela liberdade do outro. O sentimento dos seres próximos e queridos vem sugerido pelo texto que Tomás está representando no teatro, "As Ligações Perigosas". É uma espécie de subtexto nada gratuito, presente para lembrar que ser amigo dos amigos implica amar e sofrer. O charme terminal de Ricardo Darin é capitulo à parte no contexto de "Truman".

A dispersão dos Coen
"Ave, César" é uma realização repleta de autorreferências a um star system já inexistente, lembrança de uma época em que os Estúdios (vale a maiúscula) eram donos e senhores do cinema, com diretores e atores a serviço de uma imagem empresarial encarregada de forjar os sonhos com os quais plateias do mundo inteiro acabariam se identificando com Hollywood. No filme, Eddie Manix (Josh Brolin) é o homem-chave de um grande estúdio, o Capitol, às voltas com produções em march, problemas administrativos e humanos, entre ele o sequestro de um conhecido ator (George Clooney), estrela de um filme "dos tempos de Cristo", o colossal "Ave,
César !"
Entre a homenagem, a farsa, a paródia e uma visão nostálgica, Joel e Ethan Coen vão alinhavando uma narrativa que acaba congestionada por muitas ideias. Entre as mais inspiradas estão a conspiração paranoico-comunista (corre o ano de 1951) envolta por uma estética de cinema noir; o duelo cômico no diálogo hilariante entre o afetado diretor-estrela (Ralph Fiennes, perfeito) e o cowboy chucro (Alden Ehrenreich); as colunistas sociais gossips, inspiradas em Louella Parsons e Hedda Hopper, interpretadas pela sempre ótima Tilda Swinton; o numero musical coreografado no qual brilha Channing Tatum fazendo as vezes de Gene Kelly; as entradas e saídas de George Clooney oscilando entre a boçalidade e a idiotia, marcas registradas de muitos astros hollywoodiano, e a personagem de Scarlett Johansson, revivendo as peripécias aquáticas de Esther Williams. Nada disso, no entanto, consegue reverter o aspecto geral do filme, entre descompensado e disperso.

mockup