Uma estreia de peso, muito peso, hoje nos cinemas das principais cidades do país. E surpreendentemente Londrina entra nesse espaço e passa a merecer sua inserção no mapa das "principais cidades do país". Supreendentemente porque em geral os quatro grupos exibidores que controlam as quase três dezenas de sala abrigadas pelos shoppings locais dão de ombros para filmes brasileiros que não rezam pela cartilha da inconsequência global, sejam ficções alternativas, sejam documentários de temática relevante mirando áreas de interesse geopolítico. Resta saber se os segmentos de público estão à altura daquilo que vão ver (ou deveriam, ouso dizer obrigatoriamente) em "Paratodos", sem hesitação um dos melhores lançamentos brasileiros deste ano.
Este é um belo filme, para início de conversa. Comovente sem qualquer traço de chantagem emocional. Jamais autoindulgente. Didático, mas distante anos luz do academicismo estático e empobrecedor. Informativo. Interessante sem sobrecarregar a atenção. Bem humorado e grave alternadamente e a um só tempo, quando os momentos pedem/precisam de risos e/ou gravidade. Uma joia rara sobre superação, inclusão social e absorção das diferenças. Um brado retumbante contra qualquer tipo de preconceito. Além de lição exemplar que cala fundo em cada um de nós, espectadores locomotores bem andantes e potenciais detentores de visão – definida aqui como a capacidade de enxergar além do que os olhos são capazes. E para fecho de conversa, modelo irretocável do melhor formato de documentário contemporâneo.
Com roteiro de Peppe Siffredi e direção de Marcelo Mesquista, "Paratodos" encanta também por qualidades colaterais, mas não menos importantes. O filme está saindo do forno agora, a um mês do início das Olimpíadas e a dois meses dos Jogos Paralímpicos (7 a 18 de setembro, também no Rio), mas nem por um momento pode ser considerada obra oportunista. A equipe está na estrada há quatro anos (2013 até o mês passado), e nessa caminhada esteve na França, Canadá, Japão, Itália, Catar e no Brasil. De perto, bem de perto, "Paratodos" acompanhou alegrias e tristezas de quatro equipes, quatro modalidades paraolímpicas: atletismo, natação, canoagem e futebol de cinco (para deficientes visuais).
Ao aprofundar sua câmera no cotidiano complexo (mas que eles transformaram em de alguns dos principais atletas paralímpicos brasileiros, o diretor Mesquita busca (e invariavelmente consegue) trazer para o colo do público não somente os bastidores de modalidades esportivas de alta performance como abrir e convidar ao debate sobre a questão da equidade das pessoas portadoras de deficiência na sociedade. Em dado momento, o presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, Andrew Parsons, indica o caminho, aparentemente óbvio, mas talvez por isso, por ser evidente, passe tão despercebido: "Se você olhar para o que uma pessoa pode fazer em vez do que ela não consegue fazer, a perspectiva muda e perde-se a visão de coitadinho". Longe de ser ato de heroísmo, superação é só o início, o ponto de partida.
Como todo documentário que não esconde sua eleição pelo social, "Paratodos" direciona o olhar para alguns personagens que vão ocupar a tela durante os imperceptíveis 110 minutos de projeção. Coube ao velocista-recordista dos 100 e 200m, Alan Fonteles, ser o intérprete da eletrizante abertura do filme. Ascensão, glória, queda, perseverança, teimosia, bravura, esperança para a Rio-16. O foco do atletismo vai também para Terezinha Guilhermina, a velocista cega mais rápida do mundo.
Na água, Daniel Dias, nascido com má formação congênita dos membros, começou no futebol e logo ganhou as piscinas. Multi medalhista mundial, é exemplo para a formação de novos atletas portadores de deficiência. Na canoagem, dois nomes referenciais: Fernando Fernandes, ex-BBB 2, sérias lesões medular e cerebral e Fernando "Cowboy" Rufino. Seu alto astral é misto de raça, determinação e bom humor. A seleção brasileira de futebol de 5 (deficientes visuais), campeã no mundial em Tóquio-14, é outro ponto alto. E finalmente Susana Schnarndorf, triatleta olímpica até ser acometida por doença degenerativa grave. Já atleta paralímpica (o filme ficou pronto no mês passado só para acompanhar os últimos índices classificatórios dela), uma otimista Susana continua a lutar contra a progressão de sua doença.

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