O Cinéfilo Fiel Os sons que precedem 'Aquarius'
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quarta-feira, 20 de abril de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Kleber Mendonça Filho, roteirista e diretor de "Aquarius", o longa selecionado para concorrer à Palma de Ouro daqui a três semanas no Festival de Cannes, escreveu e dirigiu em 2012 sua estreia na ficção, "O Som ao Redor". Um dos mais elogiados filmes brasileiros dos últimos tempos, tem relançamento hoje no Cine Com-Tour/UEL, a teimosa sala alternativa da cidade. Conheço Kleber há quase 20 anos, e durante este tempo estivemos juntos nos festivais de Cannes, onde ele, eu e outros colegas da imprensa brasileira passamos anualmente duas semanas sob o mesmo teto, cobrindo a mostra francesa. Ao longo desta convivência, acompanhei também os decisivos curtas que realizou.
Daqui a pouco, em maio, estaremos mais uma vez juntos para a habitual celebração do cinema. Ele, claro, usufruindo o upgrade agora conferido por seu status de cineasta debutante rumo à Palma... Em 2013 Kleber levou "O Som ao Redor" ao Marché de Cannes, o mercado do filme. Foi bem visto e apreciado, recebeu convites, frequentou e venceu inúmeros festivais, foi vendido para vários territórios.
Naquele momento vi "O Som..." pela primeira vez, e meses depois revi em Gramado, de onde saiu com vários Kikitos importantes menos o de melhor filme, míope decisão daquele júri. Naquela oportunidade, como faço todos os anos, fiz a mediação dos debates, o dele inclusive. Tenho muita proximidade com Kleber e com este filme do qual acompanhei partes da gestação. Uma proximidade afetiva e intelectual, não importa a ordem. Este fator deve levantar suspeição quanto à minha atitude crítica diante do filme, suspeição também comprometida com a volta dele ao circuito local na sala por mim programada. Pouco importa.
"O Som ao Redor" é desses raros filmes brasileiros que recortam com precisão cirúrgica o entorno social do País. A obra faz a crônica diária do ritmo da vida num quarteirão de condomínios do Recife. O que emerge dessa crônica é o sutil retrato de uma sociedade que caminha para a rápida transformação social, ainda que assombrada pela crueldade de seu passado feudal.
"Premiamos o filme porque não apenas oferece uma viagem perceptiva pela sociedade contemporânea, mas o faz de tal forma que permite que cada espectador chegue às suas próprias conclusões sobre a sociedade." Esta foi a justificativa do prêmio de melhor filme no 12º Festival de Cinema Independente da Turquia, em 2013 em Istambul. Mais um, entre muitos outros colhidos em dezenas de festivais.
Aos poucos, lentamente, o público vai recebendo os dados de que precisa. Recife é capital moderna. Tem muitos prédios, e a reboque deste boom da construção civil vem atrelada uma especulação imobiliária que tudo engole, transfigurando a cidade. Uma cidade contemporânea, no pior sentido. Mas também a capital que carrega o peso de uma história senhorial, dos latifúndios predatórios da cana de açúcar. Uma cidade antiga, no pior sentido.
Esses dois Recifes se fundem num quarteirão/caldeirão que Kleber coloca em fogo brando, observando, detectando sons como o cão que não se cansa de latir, mas que preenche os limites de quem ouve e criando tensões. Entre a classe social mais elevada e a arraia miúda. Tensões que podem ou não eclodir. As coisas somente se fecham no último plano. Ou não, o que é ainda melhor. É preciso ver e rever esta dialética.
Dentro daqueles limites estão os elementos que importam. Francisco, antigo senhor de engenho, é agora abastado dono do quadrilátero urbano, homem que recicla o capital amealhado no campo. E patriarca de uma família exemplarmente disfuncional, filhos, netos e agregados o filme também é sobre isso, família atomizada e entorno imediato. Houve uma transição, é evidente. Mas o que mudou? Tudo e nada, reciclou-se o poder, reavaliou-se a dependência, a subserviência. Outros personagens vitais para a compreensão deste quadro social são os porteiros, as faxineiras, as babás. E os seguranças, que aportam ao local como milícia protetora que se instala na rua estratégica e trabalha a partir do capital que conhecem: o medo. Eles também agregam significado à estrutura narrativa.
A princípio minucioso no olhar bruto, depois nas filigranas da montagem, Kleber Mendonça nunca é óbvio e por isso jamais é perdulário. O corte vertical que faz é sempre estimulante no sentido de apreender o fenômeno das mutações sociais, seja nos quintais do Recife, seja nas esquinas da humanidade. O "Aquarius" que vem aí deve retomar temas e/ou subtemas de "Som...". Será inevitável.


