O Cinéfilo Fiel Carlos Eduardo Lourenço JorgeÀs mil maravilhas
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para Folha2 

Os números impressionam. E o filme também. No ranking do box office, o Brasil aparece com resultados extraordinários : quase 90 milhões de reais arrecadados em um mês de exibição, com mais de 5 milhões de espectadores. E um total mundial de U$ 660 milhões de dólares. A Warner Bros. , rindo à toa, já está em pré-produção da óbvia sequela, com roteiro que deve atualizar cronologicamente a personagem em quase um século após esta estreia em boa parte ambientada na Europa da Primeira Guerra Mundial.
Passados 76 anos desde a aparição de estreia da primeira super-heroína de HQ da história (hóspede ilustre do editoral DC), criada por William Moulton Martson, Wonder Woman ou Mulher Maravilha para os íntimos e Diana Prince para os mais íntimos chegou às telas do século 21 como grata surpresa. Depois de um prólogo esticado (nada a opor, pelo contrário) no paradisíaco reino feminino e oculto de Themyscira, onde é narrada infância e juventude da amazona filha da rainha Hipólita (Connie Nilsen), o filme se estende para outros territórios e se revela um acerto do princípio ao fim de seus 141 minutos.
Com orçamento substancial de 150 milhões de dólares, a diretora Patty Jenkins e o roteirista Allan Heinberg deixaram de lado qualquer pretensão de complexidade argumental para construir um blockbuster de corte clássico, com narração clara e limpa a partir de uma evidente retomada do horizonte do "Super-Homem" de Richard Donner (1978), talvez a grande referência dos filmes mais recentes com super-heróis. Mas voltemos à heroína do momento: "Wonder Woman" é de fato um triunfo. Um filme com coração e alma, que transmite valores tão em desuso como camaradagem, altruísmo e o poder do amor para transformar o mundo, sem cair por um momento sequer naquele sentimentalismo de manual. Como ação é incapaz de deslizes, para mais ou para menos, com sequências precisas como a da trincheira inglesa na praia sob fogo alemão e o grande momento de revelação de Diana como Mulher Maravilha ao atravessar a bateria de tiros. Sequencias bem dosificadas e integradas à narrativa, que não caem em erros de montagem.

O espectador está diante de um produto muito bem cuidado, com magnífica recriação de época, fantástica direção de cena e um clímax final emocionante na medida. Há, durante o desenrolar, um tratamento do humor muito natural e nada forçado. Talvez se queira invocar alguns excessos de ingenuidade em seu tom e no tratamento do romance; mas é um de seus maiores acertos, já que coloca por terra qualquer tipo de artifício ou frieza em benefício de um entretenimento atemporal, livre de modismos. E encomendar a direção a uma mulher, a esta Patty Jenkins que arrancou de Charlize Theron a inesquecível interpretação que deu um Oscar à atriz em "Monster Desejo Assassino" (2003) , resultou em absoluto acerto. Um prêmio a ela, que sempre sonhou dirigir um filme sobre Mulher Maravilha. Seu carinho e admiração pela personagem estão plasmados com precisão em cada fotograma deste filme que triunfa em compartimentos nos quais as últimas aventuras DC tinham escorregado.
Por fim, uma última palavra sobre um filme de mulheres, com mulheres e sobre mulheres, sem qualquer sinal de misoginia nem entre os vilões Ares, em especial.
A menção é para Gal Gadot, 32, atriz, modelo e cantora israelense, expert em artes marciais. E agora definitivamente identificada como Mulher Maravilha, já que seu futuro como a super-heroína parece assegurado por um bom tempo além disso, vem aí "Liga da Justiça, 1 e 2". Ela faz uma personagem fascinante, tanto quando em ação como quando deve mostrar-se vulnerável, compassiva e romântica. A trama sentimental que vivem Wonder Woman e Steve Trevor (muito bom Chris Pine, aula de química como Gadot) é essencial para que Diana descubra que ainda resta esperança para o amor e que Steve seja contagiado pela empatia que ela mantém com os fracos e indefesos.
Uma interrogação a decifrar. Por trás daquela máscara que cobre o rosto da cientista alemã, Dra. Maru, que busca a fórmula do letal gás venenoso está a atriz espanhola Elena Anaya. A mesma que Pedro Almodóvar fez prisioneira de Antonio Banderas em "A Pele que Habito" (2011), e que usava máscara muito parecida. Homenagem? Mera coincidência? Alguma referência à maldade mascarada?


