O Cinéfilo Fiel Carlos Eduardo Lourenço Jorge
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge 

Respeitoso, mas sem reverência
O público elegeu a dramaturgia das séries televisivas como essencial passatempo doméstico. E matéria obrigatória para animação de jantares e outros compromissos sociais. De minha parte, ainda resisto a uma entrega incondicional, principalmente porque sou daqueles que tem um pé atrás (os dois ?) com os dramas fatiados e esticados à exaustão ao longo de infindáveis e escravizadoras temporadas. Não que as renegue na totalidade: mas a adesão fica na dependência de maior ou menor feeling diante daquilo que é proposto. Infestação de zumbis, por exemplo, não exerce maior atração. O badalado GoT, com suas tortuosas fantasias, ao que parece acertou em cheio ao trilhar o caminho das adaptações aberto por "Senhor dos Aneis" e "Harry Potter". Posso chegar lá um dia. Mas enquanto isso, elejo com parcimônia e acesa curiosidade. Foi o que me levou há dois anos a "True Detective" e agora a "The Crown". Não me enganei, felizmente. Pelo contrário.
Além de cara (mais de cem milhões de euros), "The Crown" é uma série inteligente e didática. E boa, por consequência. Vem aí uma segunda temporada de outros dez capítulos, e espera-se que mantenha as virtudes da primeira. Coisa que "True Detective" não soube fazer. Vou aguardar sem a muito conhecida voragem seriéfila que tudo devora e pouco digere. Mas o feeling mais uma vez está apontando na direção certa.
A historia de "The Crown" se desenrola em momento político complexo: o império britânico está em queda, a política internacional se recupera do trauma da guerra a recém proclamada rainha Elizabeth II tem apenas 25 anos. A narrativa da trama, escrita por Peter Morgan (o roteiro está baseado em sua peça de sucesso "A Audiência" ) optou por um tom respeitoso, honroso mas nunca reverencial. Assistidos todos os capítulos, a impressão que se tem é que tudo foi satisfatoriamente resolvido entre o palácio de Buchingham e a produção com uma polidez e uma simpatia regadas a chá da cinco (a figura do príncipe Philip, o consorte, sai ligeiramente arranhada, bem como o relacionamento entre marido e mulher, mas tudo indica que o retrato dele na série corresponde à chamada verdade dos fatos. Ou está muito próximo disto.)
O ponto nevrálgico é o processo, lento e delicado, do amadurecimento de Elizabeth como soberana. Suas hesitações, sacrifícios e embates com um executivo com ninguém menos que Wiston Churchill. Em 1952, a jovem rainha recebeu a coroa repentinamente, com a morte de seu pai, o Rei George VI. Para ela então, o primeiro ministro era como uma espécie de avô. Ele era muito protetor, mas também duro. Sabia que deveria transformar Elizabeth em soberana, embora logo tenha sido ela quem teve que colocá-lo nos eixos. Como não há testemunhas das audiências privadas entre Elizabeth e os primeiros ministros com quem tratou desde 1952, o dramaturgo Peter Morgan , que também escreveu o premiado roteiro de "The Queen" , acertou em sua intuição e deu credibilidade os diálogos e climas.
"The Crown" é um tipo de serie agradável de ver. Não é uma cinebiografia de manual, não deixa o espectador morrer de aborrecimento. O diretor Stephen Daldry (As Horas) surpreende com a condução dos primeiros capítulos, que respeitam a harmonia de um roteiro que pede tranquilidade com as entradas de Elizabeth II desde o dia de seu
casamento até estar senhora de seu reinado que ainda agora persiste. Grandes momentos de interpretação, como Claire Foy e Matt Smith, rainha da Casa de Windsor e consorte, Duque de Edimburgo. E o que dizer de John Lithgow, um americano nas terras do Rei Arthur, mais precisamente na pele de Sir Winston Churchill?



