August "Augie" Pullman (Jacob Tremblay) é o protagonista que se submeteu a muitas cirurgias no rosto para sobreviver a malformações congênitas
August "Augie" Pullman (Jacob Tremblay) é o protagonista que se submeteu a muitas cirurgias no rosto para sobreviver a malformações congênitas | Foto: Divulgação


Grande parte desta Hollywood cínica de nossos dias não somente deixou de lado as propostas do "coração sensível" do passado, aquelas que visavam o público familiar e costumavam incluir um discurso de integração e respeito, como também hoje boa parte da indústria decidiu apontar seus esforços em direção a um enclave de terrível hipocrisia
e maniqueísmo visando ganhar adeptos para a direita fascistoide e hiper conservadora dos Estados Unidos. "Extraordinário" (Wonder), em segunda semana de salas lotadas, nos manda de volta precisamente para aqueles muito simpáticos filmes de outros tempos, nos quais a interação entre drama e comédia resultava em um esquema amigável baseado em golpes baixos sutilmente compensados com momentos de clamor lacrimal, em geral vinculado à introspecção e ao carinho.
Este trabalho de Stephen Chbosky administra com bastante astúcia os ingredientes da formula retórica e consegue um produto muito eficaz que se localiza na tradição dos amáveis e cativantes "O Menino na Bolha de Plástico" (1976) e "Marcas do Destino" (1985), filmes de subgênero centrados em personagens com alguma característica física que provoca desajuste e uma consequente angustia em relação aos parâmetros que a sociedade considera "normais" e por isso "aceitáveis". Cabe lembrar que o primeiro dos filmes citados analisava a condição de um adolescente (vivido por John Travolta) com um sistema imunológico deficitário que o condenava a viver em uma bolha estéril, enquanto o segundo mostrava um jovem com a síndrome de Proteu, ou neurofibromatose, também na trama de "O Homem Elefante".
Sem medo de equívoco: "Extraordinário" funciona (bem) como um remake não oficial de "Marcas do Destino" (por favor, confiram diretamente via Museu do DVD, no camelódromo). Isto porque o filme em exibição toma a arquitetura do trabalho feito há 32 anos por Peter Bogdanovich, somente reduzindo a idade do protagonista, trasladando a ação para Nova York e abrindo um pouco mais o leque familiar. Agora o catalizador do relato é o padecimento de August "Augie" Pullman (Jacob Tremblay, revelado em "O Quarto", 2015), menino que teve que se submeter a muitas cirurgias no rosto para sobreviver a malformações congênitas, um martírio que o deixou com um aspecto que o envergonha. Os pais, Isabel (Julia roberts) e Nate Pullman (Owen Wilson), e sua irmã Olivia (Izabela Vidovic), o acompanham no duro período de transição desde a educação doméstica ao início da frequência à escola, um transe que obriga o pequeno a enfrentar
a discriminação, o bullying e os ataques da incessante violência do mundo.
Definitivamente o elemento que diferencia o filme de outros similares passa pela decisão dos roteiristas Steve Conrad, Jack Thorne e do próprio diretor – a partir de best seller da escritora R.J. Palacio – no sentido de construir um painel inesperadamente complexo em torno do círculo íntimo da família Pullman e não apenas de Augie, medida que nos leva a conhecer as histórias da amiga da irmã, Miranda, e de Jack Will, o novo amigo de Augie. Para além do excelente desempenho do elenco, destaque absoluto para o garoto Jacob Tremblay, o que também valida este melodrama de excluídos é o equilíbrio narrativo e a profundidade que se concede a cada personagem em particular, somado ao fato de que Augie jamais toma o formato de garoto caprichoso e indulgente, embora tenha reações clássicas de sua idade; a trama permite a ele momentos de sabedoria, que condizem com a força da luta de seus pais.
"Extraordinário", em última instancia, é um retrato do campo simbólico da sociedade atual, enfatizando as assimetrias e os preconceitos encontrados (e sentidos) em todos os lugares, e contra os quais devemos sem dúvida nos posicionar – entendendo, tentando compreender e avaliando este quadro complexo de injustiças cotidianas.
Tragicômico, agridoce, é o tipo de filme que aposta no riso e sobretudo no pranto vindo da emoção mais pura e genuína – evitável o episódio do pet da casa, um tanto facilitador e gatilho desnecessário para o que virá a seguir. Dirigido com nobreza e protagonizado com convicção, talento e sensibilidade, seja por adultos, seja pelas crianças e adolescentes, "Wonder" é filme comovente que, além de sua correção política, sabe superar em muito os receios que a simples leitura da sinopse poderia gerar. E decididamente, não é entretenimento para cínicos.