Kristen Stewart vive personagem que quer se comunicar com o irmão morto
Kristen Stewart vive personagem que quer se comunicar com o irmão morto | Foto: Reprodução


Olivier Assayas, roteirista e diretor da pós 'nouvelle vague', é um dos nomes mais controversos da vanguarda cinematográfica. Aos 63 anos, reúne admiradores e detratores em igual medida. De sua reduzida filmografia, o único título exibido em Londrina foi "Depois d Maio/Après Mai", lançado e depois reprisado pelo Cine Com-Tour/UEL. A partir desta quinta (12), na mesma sala, estreia "Personal Shopper" (o título original foi mantido pela distribuidora Imovision), longa inédito de 2016 que oscila entre o thriller e o terror psicológico; entre o espiritual e o material mais mundano.
A jovem americana Maureen Cartwright (Kristen Stewart, definitivamente dando adeus ao lívido universo da saga "Crepúsculo") trabalha como 'personal shopper' radicada em Paris – é uma especialista na área de moda que ajuda clientes na escolha de produtos adequados para cada ocasião, estilo de vida e orçamento. Sua cliente preferencial é Kira (Nora von Waldstätten), personalidade vinculada ao mundo da alta moda. No momento, Maureen trabalha absorvida por drama pessoal: o luto pela morte de Lewis, seu irmão gêmeo morto recentemente por uma deficiência cardíaca da qual também ela é portadora.
Ela quer entrar em contato com ele, já que ambos compartilhavam mediunidade. Assim, Maureen pretende convocar espíritos e achar um caminho para saber se o irmão está em paz. Enquanto ela aguarda em Paris um sinal de Lewis, seu namorado está no Oriente Médio trabalhando para os árabes como programador. O filme abre com a jovem entrando num casarão vazio e isolado onde não demora a ouvir ruídos estranhos e a ter visões particulares. À medida que a trama avança, o roteiro engendra um artifício de suspense: a protagonista começa a receber, via WhatsApp, mensagens anônimas que desafiam sua consciência e a colocam numa encruzilhada: se está ou não, se comunicando com seu irmão.

O roteiro também potencializa o drama e a incógnita que pretende projetar; e nesses momentos, entre terror e ansiedade, Kristie Stewart consegue administrar com bravura a narrativa, e durante um bom espaço de tempo do filme ela atua sozinha e/ou contracenando com seu celular. Esta interação silenciosa (e visual) com o aparelho, durante a qual o personagem mantém longas trocas de mensagens com o interlocutor desconhecido que poderia ser de uma dimensão fantasmagórica, cria uma real inquietação. Mas ainda assim o filme não consegue adotar uma postura firme. Apesar de exibir situações sobrenaturais valer-se desse recurso, a posição é bem mais ambígua, o que retira a credibilidade à medida em que Assayas procura um desfecho. Uma vez solucionado o conflito com o celular (que o diretor filma admiravelmente), a tensão baixa abruptamente, deixando a expectativa de algo mais. Que não acontece.
"Personal Shopper" propõe um tom absolutamente realista, mas também irrupções fantásticas que a aproximam do subgênero de fantasmas. De qualquer maneira, o sobrenatural se manifesta apenas nuns insólitos chats telefônicos e, às vezes, luzes que se movem ou um copo que se quebra. O filme conserva seu fascínio, seu mistério e sua inquietação até a meia hora final, quando o diretor francês claramente envereda em busca de solução tortuosa. E o filme escapa de seu controle, distanciando-se de um final e abrindo janelas para situações frustrantes que beiram ao ridículo (Stewart é boa de fato e se segura como pode).
Mas objeções (justas) à parte, não se pode negar a "Personal Shopper" uma insólita combinação de elementos e ideias – fantasmagorias tecnológicas, vacuidade do mundo das aparências –, e também a sensibilidade de Assayas para captar mais as sugestões do que as evidências. E ainda a elegância como filma o fantástico – a sequência inicial na casa abandonada é muito bom exemplo de como transmitir inquietação, ainda que depois o filme mescle tons, gêneros, sub-tramas e entre em dispersão.

mockup