Qual a principal premissa de "Jogo do Dinheiro", lançamento de hoje no circuito nacional, Londrina incluída? O filme dirigido por Jodie Foster, que teve estreia mundial fora de competição no recém-encerrado Festival de Cannes, não deixa dúvidas de que a resposta, antes de mais nada, passa pela irresponsabilidade e a falta de transparência dos meios de comunicação. E, a reboque, passa também pelas excrecências do sistema financeiro.

Em "Money Monster", George Clooney encarna o símbolo perfeito das misérias do capitalismo, um cínico sem escrúpulos manipulando um programa televisivo líder de audiência e especializado em dar conselhos financeiros especialmente aos pequenos investidores da bolsa, pessoas crentes e, por que não, com a dose ideal de primária ambição que impulsiona o ibope da tevê para as alturas. Clooney é uma espécie de palhaço como aquele velho guerreiro Chacrinha de ontem e o Silvio Santos de sempre, cujos bordões "vocês querem bacalhau" e "quem quer dinheiro", respectivamente, se transformam aqui em sofisticada roleta russa que uma produtora igualmente irresponsável (Julia Roberts) coloca no ar por meio de irresistível e desenfreada armadilha coreográfica de sons, luzes e cores.

Entre as vítimas dessa tramoia que trabalha com as poucas economias da população e com base em informações que se transforma de uma hora para outra em pesadelo está um jovem que, logo nos primeiros vinte minutos do filme, durante a transmissão ao vivo do programa, irrompe no cenário onde o apresentador Clooney entrega as primeiras dicas para arrancar as economias dos ingênuos aplicadores. Desesperado e armado com pistola e explosivos num colete, ele exige respostas, explicações e responsabilidades, ou pretende explodir todo o edifício.

Dar mais detalhes do argumento não cabe aqui. Não por temer o spoiler, mas porque não há necessidade. Em primeiro lugar, porque a situação de um sequestro registrado pela televisão já foi, e muito bem, explorada pelo cinema em filmes como "Um Dia de Cão"(1975) e "Rede de Intrigas" (1976), ambos de Sidney Lumet. Especialmente a segunda, "Network", talvez o tratamento cinematográfico mais impactante e lucido a dissecar e denunciar as mazelas deste veículo, ainda hoje fazendo vítimas em profusão pela prática de doses letais de leviandade. Entre outras más qualidades, bem superiores às suas (inegáveis) virtudes. E em segundo lugar, será preciso muito esforço para não adivinhar tudo o que se passa depois de ver apenas esses já referidos vinte minutos que abrem o filme-show de Foster.

E este é de fato o problema que deixa o filme sempre na corda bamba. Em seu quarto trabalho por trás das câmeras, a diretora certamente coloca o espectador de imediato em contato com os fatos. Não perde tempo com detalhes supérfluos, nem busca efeitos colaterais e nem cai em sentimentalismos óbvios. Mas ao lançar mãos de constante fundo musical e uma câmera sempre irrequieta, ela vai deixando claro que sua estrutura dramática não funciona como geradora do mínimo suspense. É com certeza um exercício narrativo eficaz, e isto porque em boa medida o centro moral da trama é o sequestrador, que representa milhões de pessoas que não aguentam mais serem abusadas. Mas também aqui a coisa se complica, porque o personagem perde rapidamente peso dramático diante do incisivo despertar da consciência do showman vivido por Clooney e da produtora Julia Roberts, ambos alçados à condição de quase heróis.

É por meio de Clooney que o filme pretende meditar sobre aquilo que o ator, durante a entrevista coletiva que se seguiu à projeção em Cannes, definiu como "o perigoso momento em que os noticiários deixaram de informar para dedicar-se a entreter e ganhar dinheiro". E a meditar ainda sobre a corrupção intrínseca ao sistema financeiro, frequentemente recorrendo a toques de humor negro que pretendem elevar a história à condição de sátira politicamente relevante. Mas afinal tudo aquilo que "Jogo do Dinheiro" nos oferece a respeito são explicações simplificadas, como esta que dá o título original ao filme, o dinheiro é um monstro... Sobre isto, o documentarista Michael Moore já fez mais e bem melhor.

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