Uma sessão beneficente promovida pelo Hospital Pequeno Príncipe trouxe a Curitiba, semana passada, o jovem e talentoso diretor carioca Andrucha Waddington. Em menos de 15 dias, o seu filme ‘‘Eu, Tu, Eles’’ já foi visto por 300 mil brasileiros, em 124 salas de 48 cidades do País. Recentemente, o longa-metragem estrelado por Regina Casé também foi sucesso de crítica em vários festivais europeus, incluindo Cannes.
‘‘É um filme sobre concessões que a gente tem que fazer para viver, sobre amizades, sobre companheirismo, sobre a delicadeza da vida’’, define o próprio Waddington.
Casado com a atriz Fernanda Torres e pai do pequeno Joaquim, de dez meses, o diretor comemora a boa fase na vida pessoal e na carreira. No dia 10, ‘‘Eu, Tu, Eles’’ será apresentado no Festival de Toronto, no Canadá. No início do próximo ano, o filme entrará em circuito comercial em vários países da Europa, Ásia e Oceania.
Um dos produtores do longa-metragem, Leonardo Monteiro de Barros, que também esteve em Curitiba, elogia o fato de filmes nacionais estarem despertando o interesse de grandes distribuidoras, como a Columbia Pictures, que não poupou recursos com ‘‘Eu, Tu, Eles’’. ‘‘O lançamento foi semelhante ao de filmes como ‘O Gladiador’, o que nos honrou muito’’, diz ele.
Na entrevista concedida durante a visita do diretor e do produtor ao Hospital Pequeno Príncipe, Waddington comentou ainda sobre o seu possível novo filme. Ele acaba de ser convidado pela distribuidora Miramax para dirigir uma película baseada na vida da artista mexicana Frida Kahlo, que seria interpretada pela atriz Salma Hayek. ‘‘Ainda estou analisando a proposta, mas existem possibilidades’’, antecipa. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Waddington.
O filme foi super bem recebido nos festivais europeus. Como está sendo a aceitação do público brasileiro nestes primeiros dias de exibição?
Muito boa. Por onde o filme passa, ele toca a platéia de uma maneira surpreendente. Fazer um filme é diferente de fazer novelas, onde você vai sentindo o público e corrigindo, acertando de acordo com o desejo da audiência. Portanto, é uma agradável surpresa ver que o filme está agradando tanto, todas as classes sociais. Para você ter idéia, fizemos uma projeção ao ar livre em Morada Nova (Ceará), que é a cidade onde vive a Dona Marlene, personagem em quem o filme foi inspirada. Daquelas pessoas que estavam ali, 60% nunca foram ao cinema na vida e 30% não tem luz elétrica em casa, e todo mundo seguiu a história, riu e se emocionou muito. Naquele momento em percebi que desde o público mais humilde até as pessoas mais intelectualizadas ‘‘embarcam’’ na história.
Contar boas histórias, calcadas em bons roteiros, seria um caminho para o cinema nacional?
Eu acho que o cinema brasileiro está precisando é de volume de produção. Já foram produzidos mais de 100 filmes por ano e hoje estamos em torno de 30. Quando você tem um volume grande de filmes, você gera a possibilidade de ter todo tipo de filme dentro da cinematografia de um País. O cinema brasileiro precisa de todo o tipo de filmes, desde os mais intelectualizados até os mais comerciais, como os da Xuxa. Assim você reacostuma o público a ir ao cinema. Até os anos 70, antes de existir o vídeocassete, havia cerca de três mil salas no País e as pessoas tinham o hábito de ir ao cinema. Hoje há cerca de 1,5 mil salas e as pessoas estão reaprendendo a assistir a filmes nacionais.
E o Brasil tem condições de produzir mais filmes neste momento?
Com certeza. O que está faltando é dinheiro. Há um mecanismo, que são as leis de incentivo, e acho que estamos caminhando para reestabelecer este mercado. Se quisermos, a longo prazo, ter uma indústria cinematográfica no Brasil será preciso que estas leis tenham vida longa e que o público se habitue novamente a ver filmes nacionais.
Muitas pessoas estão comparando ‘‘Eu, Tu, Eles’’ e ‘‘Central do Brasil’’. Existe alguma semelhança entre os filmes?
Acho que não. São temas diferentes e filmes bem diferentes, mas que se encontram da metade para o final, quando as histórias se passam quase no mesmo local do Brasil. São dois filmes inspirados em histórias reais. O que aproxima os dois também é o fato de o público brasileiro gostar de ver bons filmes e gostar de se ver na tela. Ambos os filmes revelam a cara do Brasil de uma forma diferente daquela visão limitada que é passada pelas novelas.
Apesar da história contada em ‘‘Eu, Tu, Eles’’ ser ‘‘amoral’’ para os padrões da sociedade atual, você mostrou personagens totalmente puros e sem malícia. Como foi o processo de construção destes personagens?
A minha primeira preocupação foi respeitar a dignidade destas pessoas. Eu achei a história muito bonita, essa mulher mostrou que pode haver uma maneira de amar e de conviver em que a amizade, a paixão e a união entre eles é mais forte do que qualquer coisa. É simplesmente uma relação atípica para os padrões normais e que deve ser tratada com a maior dignidade. Outra característica da construção dos personagens é que no filme não existe o bom e o mal, o mocinho e o bandido, são todos seres humanos.
Como foi o processo de escolha dos atores?
A Regina (Casé) estava na minha cabeça desde o início, desde que eu vi uma entrevista da Dona Marlene (que inspirou o filme) na televisão, há uns cinco anos atrás... A Regina tem uma beleza interior muito grande e ela tem todas as qualidades que uma atriz precisava para interpretar a Darlene... O fator decisivo para a escolha foi uma conversa casual, com um motorista de táxi, com quem comentávamos o filme. Ele parou no sinaleiro, virou para trás e disse: ‘‘Taí, gostei da história, mas tem que ser a Regina Cas钒. A segunda escolha foi o Stênio Garcia, que tem as mesmas características do Zezinho, a mesma docilidade...

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