Enquanto a globalização avança, pasteurizando lentamente o modo de vida de bilhões de pessoas, uma corrente nada contra a maré, em busca da identidade da aldeia. Nesse caminho, as Rádios Comunitárias (R.C.) procuram um lugar ao sol. Dotadas de potência acanhada, a intenção é atingir a vizinhança. A cidadania chega em frequência modulada. Para obter a concessão para funcionamento, é preciso escalar o íngreme paredão das exigências burocráticas do Ministério das Comunicações. Outro obstáculo é o enfrentamento com as rádios comerciais.
No momento, tramitam em Brasília cerca de 8 mil solicitações para funcionamento de Rádio Comunitárias. A legislação que regulamenta a forma de atuação desse segmento data de fevereiro de 1998. ''A lei é importante, porque abre espaço para a comunidade local se comunicar'', afirma Odemir Briola Marques, da Rádio Nova Geração FM, de Jataizinho (a 21 km a leste de Londrina). Desde o dia 10 de agosto está no ar a Rádio Nova Geração FM, sintonizada no prefixo 87,9 MHz. A concessão da Nova Geração FM é a de número 384 no País. Estão envolvidas no projeto da Rádio Nova Geração FM mais de 200 pessoas da comunidade. O alcance limitado de 8 km (25W de potência) se adequa na medida para a cidade de 17 mil habitantes. No Paraná, já foram liberadas concessões para Jataizinho, Iporã, Guaratuba e São Mateus do Sul.
Durante seis anos, a comunidade de Jataizinho lutou pela implantação da R.C. Em caráter informal, a emissora começou a funcionar em 1996, sem permissão legal. A Polícia Federal interceptou o funcionamento e apreendeu material de transmissão e a mesa de som, que custam R$ 2 mil. ''Lacrar a Rádio deu mais força. O que vale é o espírito de perseverança''. Briola explica que, na época, colocava-se a emissora no ar para depois brigar pela concessão. Hoje, acontece o inverso.
Briola participou de encontros pelo Brasil como em Atibaia (SP) e Porto Alegre (RS) para aprender o funcionamento e o alcance para a comunidade de uma emissora nesses moldes. A emissora de Jataizinho traz em sua grade de programação entrevistas com a comunidade, agenda de eventos e manifestações e debates de interesse local, além de músicas solicitadas pelos ouvintes. Eles pretendem veicular as sessões da Câmara de Vereadores.
Em Londrina, as dificuldades são de outra ordem. Várias comunidades aguardam a liberação pelo Ministério das Comunicações da concessão de funcionamento. Na região oeste (Jardim Leonor, Santa Rita, Maria Lúcia e Santiago) funciona a Associação Rádio Dinâmica FM. No labirinto do Ministério das Comunicações, o projeto da comunidade da zona oeste está em estágio avançado. Segundo Cesar Augusto Clemente, diretor presidente da entidade, o projeto deve demorar ainda 4 ou 5 meses para liberação.
Desde o ano passado, a Rádio Dinâmica FM, apesar de não existir efetivamente, lançou um Guia Telefônico com os telefones residenciais de comerciais da região oeste. Esse ano, foram distribuídos gratuitamente 5 mil exemplares, dando oportunidade aos pequenos comerciantes anunciarem a um preço acessível. ''Com isso, a população começou a ter conhecimento da rádio'', afirma Guto Clemente. A futura emissora não possui sede, nem equipamento. O custo do equipamento completo para a transmissão é de R$ 10 mil, verba que deverá ser obtida com o apoio cultural da comunidade. No projeto encaminhado à Anatel, a emissora deve abranger um raio de 1 km e meio.
''A Rádio Comunitária vem resgatar o bairrismo e a cidadania. Quem definirá a programação será a comunidade da região oeste'', avisa Guto Clemente. Dentre os temas trabalhados, estão o de educação, saúde, esporte, cultura e meio ambiente. Daqui a duas semanas, Guto estará em Brasília para tentar agilizar o processo.
Em 1998, em caráter experimental funcionou por mais de 30 dias a Rádio Cincão FM. O lema da emissora é ''A Rádio que fala a nossa língua''. A comunidade da região norte de Londrina sintonizou a frequência 87,9 MHz e demonstrou interesse. ''Em poucos dias, a Rádio Cincão ganhou mais espaço que as rádios comerciais'', garante Tito Vale, advogado, um dos precursores da democratização da radiodifusão naquela região. Como não possuíam concessão, os equipamentos foram lacrados. Tito Vale afirma que até o mês de outubro deve sair a concessão. A sede da Rádio Cincão FM funciona na Rua Avinhados, 322, Conjunto Violin, com todos os equipamentos para o funcionamento.
''Rádio não é só música e jornal. A programação das rádios comerciais são niveladas por baixo. Eles ridicularizam o povo'', constata Vale. O compromisso da iniciativa privada da radiodifusão com a promoção cultural parece estar esquecido, na opinião do advogado. Nas R.C. 100% da programação é voltada para a comunidade (30 mil pessoas na região norte). Esporadicamente, a Rádio Cincão FM entra no ar, em caráter de teste. Quem quiser ouvir deve ser insistente no dial do rádio na frequência 87,9 MHz.
A região Sul possui uma das comunidades mais organizadas de Londrina e também luta por um concessão para a radiodifusão. A instalação da Rádio Sol FM deve abranger os seguintes bairros: Parque Ouro Branco, Cafezal, União da Vitória, Jardim Igapó e Conjunto das Flores e imediações. Foi constituída uma Fundação para que o projeto possa ser encaminhado. Por enquanto, o processo ainda está na fase inicial, pois o Consul (Conselho de Saúde da Região Sul) está à procura de um técnico para atender as especificações técnicas dos canais. Não há um especialista na área em Londrina.
''Temos as idéias e estamos correndo atrás'', argumenta Fernando Gomes Negrão Júnior, um dos idealizadores do projeto. Ele acredita que as Rádios Comunitárias devem influenciar as comunidades e até desviar ouvintes das emissoras convencionais. ''Queremos saber o que acontece na nossa rua'', advoga Fernando Negrão. Ele exemplifica que uma reportagem retratando os meninos de rua de São Paulo e outra com o mesmo tema, mas realizado na comunidade, o efeito de comunicação é outro. ''Um dos objetivos das Rádios Comunitárias é o de politizar as pessoas, levar o cidadão a exercer a cidadania'', conclui Negrão.

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