O choro resgatado por um bamba
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de setembro de 1998
Ranulfo Pedreiro 
Os músicos do Rio de Janeiro assistiram com prazer o surgimento da revista Roda de Choro, nos idos de 1995. Entre eles, Henrique Cazes - um dos grandes nomes do cavaquinho - apoiou a iniciativa com uma coluna em que narrava histórias do gênero musical. A revista chegava à terceira edição quando o crítico Tárik de Souza telefonou para Cazes, sugerindo que o músico transformasse a coluna em livro.
Passado o susto inicial, Henrique Cazes topou a empreitada. As pesquisas duraram um ano e meio, e em quatro meses o instrumentista ouviu cerca de 24 horas por semana de gravações da época mecânica, feitas em chapas de gramofone e transferidas para o formato cassete pelo pesquisador Jairo Severiano.
No processo, Cazes descobriu fatos surpreendentes, destruiu meias verdades e trouxe novas informações sobre o ritmo. O resultado é o livro Choro - Do Quintal ao Municipal, que narra toda a trajetória dos chorões desde as origens, no século passado, até as novas gerações. O livro, que deve ser lançado em Londrina e Curitiba no começo de outubro, traz revelações surpreendentes e aponta novos rumos.
Para concretizar a obra, Cazes foi cuidadoso: Consultei todo mundo, mas tive cuidado com as entrevistas. A gente sabe que algumas pessoas acabam perpetuando coisas que não aconteceram, e procurei ouvir pessoas mais neutras nesta história toda, comentou ele à Folha2.
Durante as audições, Henrique Cazes descobriu, por exemplo, que a primeira gravação de Pixinguinha foi a polca Nhonhô em Sarilho, com o Grupo Choro Carioca, e não São João Debaixo DÁgua, como vinha sendo apontada até então em algumas biografias do compositor.
As gravações mecânicas foram as fontes mais valiosas da pesquisa e englobam o período que vai até 1920, a fase em que, proporcionalmente, mais se gravou música instrumental no Brasil, comenta o autor. Às audições, Cazes acrescentou várias entrevistas, além de informações colhidas na leitura de tudo o que foi publicado sobre choro no Brasil. Não existia um livro que fizesse essa retrospectiva até os dias de hoje, acrescenta.
A publicação abrange a história do choro desde Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga até grupos atualíssimos como o Água de Moringa. No retrospecto, ganha destaque também a revitalização que o ritmo vive hoje, abandonando dogmas para ampliar a espontaneidade.
A grande renascença que vivemos do choro vem da libertação dos dogmas propalados pelo Jacob do Bandolim. Durante muito tempo se repetiu o que ele já havia tocado e falado, revela Cazes que, no texto, não nega a importância de Jacob para o desenvolvimento do choro.
A liberdade propagada pelo músico vem embasada em formações diversificadas que ressaltam a estética do gênero musical. Nessa concepção, o termo chorinho teria um significado restrito, de formato estratificado. Já a palavra choro representaria uma proposta musical mais ampla.
Essa mudança teria por base a Suíte Retratos, de Radamés Gnattali, feita em 1956, dedicada a Jacob do Bandolim: Essa composição deu origem à Camerata Carioca e despertou o interesse do Duo Assad pelo choro. Aconteceu uma revolução. A Camerata surgiu no meio desta revolução e reuniu pessoas que hoje trabalham no choro com posições inovadoras tanto na parte musical quanto didática.
Cazes explica que as inovações no choro - que, entre outras realizações, aproximaram o estilo da música de câmara - foram importantes para a própria vitalidade do gênero: Isso tem que ser feito senão essa música começa a correr o risco de desaparecer. O momento mais perigoso foi no começo da década de 80, quando o choro foi varrido da indústria fonográfica. Mas, aos poucos, voltou a aparecer, via selos alternativos. Neste período, o choro perdeu muito público.
O músico deixa claro que não espera ver o ritmo concorrendo comercialmente com o pagode, mas sim que o segmento cresça a ponto de voltar a ocupar as prateleiras das lojas. Tem muita gente fazendo choro. A novidade é que alguns compositores modernos não são chorões, como o Guinga e o Leandro Braga. Mas também temos novos chorões compondo, acrescenta.
No livro, são citadas iniciativas paranaenses de ensino e divulgação do choro, promovidas pelo Conservatório de Música Popular Brasileira de Curitiba e as Oficinas do Festival de Música de Londrina. Choro - Do Quintal ao Municipal é um verdadeiro achado para quem quiser compreender um pouco mais da música brasileira.
Choro - Do Quintal ao Municipal, de Henrique Cazes. Editora 34, 214 páginas, R$ 23,00


