O violonista Luiz Otávio Braga explica por que o gênero musical não combina com o espírito volúvel dos meios de comunicação
José SuassunaLuiz Otávio Braga: ‘‘O músico tem que aprender o choro porque ele é uma carteirra de identidade onde se lê: Eu sou do Brasil’’

Zeca Corrêa Leite
De Curitiba

Mesmo sendo a música brasileira mais autêntica, o choro ainda é um gênero para iniciados. Ele não chega à massificação, passam os anos e permanece discreto, servindo de base para as manifestações artísticas de peso. ‘‘A música popular urbana no Brasil tem uma espinha dorsal: é o choro’’, afirma o violonista Luiz Otávio Braga, que está em Curitiba dando aulas na 8ª Oficina de MPB.
Professor da UFRJ desde 1994, nos últimos 16 anos vem correndo o Brasil através de oficinas semelhantes, criadas por ele e Roberto Gnattali, e ensinando aos jovens o conhecimento acumulado não só sobre o instrumento mas também sobre a beleza da música nacional. ‘‘A gente presta esse tipo de trabalho de ensinar, de formar gerações novas. Eu, especialmente no choro’’, detalha.
Músico profissional desde 1976, por todo este tempo Braga acompanha os mais importantes intérpretes, sejam eles cantores ou instrumentistas. Esteve sempre lado a lado com a nata do que há de melhor – realmente – na música brasileira. Apesar disso, nunca gravou um único disco. Seu nome multiplica-se em dezenas de outros lançamentos como acompanhante, mas ser o solo de uma gravação é o tipo da questão que ainda hoje não lhe atrai.
‘‘Não acredito muito nesse negócio de disco’’, afirma. ‘‘As minhas gravações são sempre com colegas, mas ainda vou ter tempo para fazer o meu’’, promete um tanto evasivo. Inteiramente entregue ao choro, Luiz Otávio é da opinião que aquilo que ele toca – e que compõe – é um produto que passa ao largo da grande mídia. ‘‘Felizmente. É uma sorte o choro não frequentar essa mídia’’.
O gênero é como um batismo de nacionalidade que não daria certo com o espírito volúvel dos meios de comunicação, atrelados às gravadoras multinacionais. É o que se deduz quando o professor discorre sobre a música:
– O choro é para o músico como o idioma pátrio. Você tem que falar o português, que é a nossa língua herdada e abrasileirada. Eu prefiro o português brasileiro a ter que falar inglês, francês, italiano, alemão. Ele faz parte de uma linguagem que está acima de qualquer expectativa de colonialismo, globalização, transnacionalismo. etc. O músico tem que aprender o choro, porque ele é como uma carteira de identidade onde se lê: ‘‘Eu sou do Brasil’’.
Desde que surgiu nos quintais das casas cariocas, distante dos vetustos salões que ambicionavam cores da cultura francesa, este gênero fincou raízes e se tornou tradição. Mesmo discretamente, está sempre presente nos movimentos musicais. Ganha maior notoriedade em tempos de crise, quando então a tendência do homem é voltar-se ao passado e escolher os melhores momentos onde se refugiar.
‘‘Isso é um modo do ser humano operar; ele se refugia no melhor que tem. O choro é um dos melhores pedaços que o passado musical brasileiro tem’’, raciocina Braga. ‘‘Graças a essa produção e a alguns abnegados que trabalham na sua preservação, na sua reconstrução, na invenção desse passado é que se pode ver a reconstituição e reinterpretação a todo momento da tradição do choro’’.
Esta é uma escola que forma a espinha dorsal da música popular urbana no Brasil, sustenta o professor. Quando surge a indústria cultural, ainda incipiente, mas começa a gravar seus primeiros discos, grande parte dos músicos solicitados era de chorões da melhor estirpe. Quando o samba explode, entre os anos 20 e 30, os acompanhamentos eram feitos por esse mesmo pessoal.
‘‘O conjunto de choro é uma espécie de arqueologia’’, compara o violonista. Mesmo nos tempos de ouro da Rádio Nacional, com grandes maestros como Radamés Gnattali, Lyrio Panicalli, Leo Perachi, mesmo assim tinha um regional no elenco. Ainda hoje ele persiste, apesar da selvageria em que se transformou a indústria cultural, sustenta Braga.
Em meados dos anos 70 Abel Ferreira, Dino 7 Cordas, Copinha, Canhoto serviam às grandes orquestras. A seguir vem a geração de Maurício Carrilho, Deo Rian, Rafael e Luciana Rabelo, Joel Nascimento – e onde Luiz Otávio se insere –, e à medida que o tempo passa esses músicos passam a trabalhar com aqueles que chegaram depois. ‘‘Se existe uma coisa de que eu me orgulhe é a de pertencer ao grupo de pessoas, amigos, compositores que continua ensinando a essa juventude’’.
É um mergulho ao passado, sem ser um exercício de nostalgia. ‘‘O músico que não conhece o passado recente da vida musical do Brasil é um grande bobalhão’’, sentencia Braga. ‘‘É um sério candidato a levar uma vida, possivelmente até com alguns sucessos efêmeros, alguma fama efêmera, alguma riqueza fortuita, mas ele é um nada. Porque será incapaz até de falar sobre essa coisa toda, essa herança, essa vida intensa que está a풒.

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