Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha2
É tarefa no mínimo surreal, traçar linhas de uma única página para evocar centenário tão solene. Quem quer que se ajeite diante do PC para pensar buñuelescamente teria que ser como ele, Don Luis. Manuscrito, irreverente, sarcástico, polêmico, herético, singular, datilógrafo, original, poético, crítico, iconoclasta, simbólico, onírico, demolidor, cruel. Genial.
Luis Buñuel Portolés. 22 de fevereiro de 1900. Calanda, Teruel, província aragonesa. Pai ferreiro, mãe apenas mãe, primogênito de sete filhos, infância normal. Ouvindo tambores nas procissões. Estudos em Zaragoza, determinantes, católicos, jesuíticos. Aos 17, destino Madri. Inclinações literárias, sufocadas. Caminhos da Agronomia, barrados na faculdade. Curso de Entomologia, sonho não concretizado - pelo menos em nível consciente, acadêmico, real. Bacharel em Filosofia, aos 24. E o encontro decisivo, na Residencia de Estudiantes. A amizade com Garcia Lorca, José Maria Hinojosa, Salvador Dalí. Ao seu alcance imediato, as tendências mais importantes da arte e do pensamento naquele momento. A vanguarda a seus pés. Ou antes Buñuel aos pés da vanguarda. Aos 26, destino Paris. Assédio cinematográfico irresistível, via Academia de Cinema de Jean Epstein. A estréia é como assistente de direção do próprio Epstein.
1928. Buñuel adere ao manifesto grupo surrealista de Paris, os filhos de André Breton. Atraído e identificado com a intransigência moral e artística, e com a nova política social. Às artes plásticas e à literatura, ele acrescenta o cinema, decidindo levar à tela a estética do surrealismo. ‘‘Un Chien Andalou’’ (Um Cão Andaluz) é efetivamente o primeiro filme do movimento, realizado em colaboração com Salvador Dalí e marcando a primeira incursão agressiva e deliberada da poesia na arte cinematográfica. Uma obra capital sob todos os pontos de vista: segurança na direção, conhecimento preciso de associações visuais e ideológicas, sólida lógica do sonho e admirável confrontação do subconsciente e do racional. Ao inesperado êxito de público segue-se dois anos depois o escândalo de ‘‘L’Âge d’Or’’ (A Idade do Ouro), massacrado pela extrema direita e afinal proibido pelo chefe de polícia de Paris.
Aos 30, destino Hollywood. Breve, brevíssima permanência como ‘‘observador’’ da MGM. Rompe o contrato, volta à França, logo chega à Espanha para saudar a proclamação da República e de novo está em Paris para então separar-se do grupo surrealista. Um documentário censurado na Espanha em 32 - ‘‘Las Hurdes’’ (Terra Sem Pão) - e um longo período abortivo, até 1947, sem dirigir um único filme, limitando-se a escrever roteiros, produzir e fazer dublagens em francês e espanhol de filmes americanos. Em 46, com a mulher, Jeanne Rucar, e os dois filhos, Juan Luis e Rafael, muda-se para o México. Em 49 pede e recebe a nacionalidade mexicana e dá início a uma etapa exuberante e incompreensivelmente subestimada em sua carreira de realizador. O início do período não é brilhante, mas a partir da sensação provocada em Cannes por ‘‘Los Olvidados’’ (50), a crítica reencontra o grande autor da época surrealista. Seguem-se obras brilhantes como ‘‘Robinson Cruso钒 (53) , ‘‘Él’’ (54), ‘‘Abismos de Passión’’(54) e ‘‘Ensayo de un Crimen’’ (55), além de mais uma dezena de títulos que permitem concluir que Buñuel tinha voltado a ser o formidável rebelde dos idos surrealistas. Um Buñuel mais temperado na forma e com forte ingrediente de crítica social.
Diversas biografias e estudos sobre a obra de Luis Buñuel tendem a concentrar-se no terço final de sua carreira - os filmes franceses produzidos por Serge Silberman - e nos primeiros anos de militância surrealista, menosprezando o ciclo do México. Restrições e preconceitos infundados e descabidos. A safra mexicana ainda produzia obras capitais como ‘‘Viridiana’’ (61), ‘‘El Angel Exterminador’’(62) e ‘‘Simon del Desierto’’(65). Menção especial para o caso ‘‘Viridiana’’. Co-produção com a Espanha, foi inteiramente rodado no país natal e representou oficialmente o cinema espanhol em Cannes-61, de onde saiu com a Palma de Ouro. Polêmica instantânea: o Vaticano o ataca por sacrilégio e blasfêmia, a censura espanhola proíbe a exibição do filme. O escândalo maior é o êxito mundial de público. Punição. Buñuel só voltaria em 70, data da realização de ‘‘Tristana’’.
1962 é o início da chamada ‘‘época européia’’ (francesa, com maior justiça), em colaboração com o visionário produtor Silberman. A partir de ‘‘Le Journal d’Une femme de Chambre’’ (Diário de Uma Camareira), o que bate na tela é uma ampla meditação sobre a vida contemporânea e uma crítica feroz dos falsos valores que a sustentam. O momento culminante dessa proposta bem pode ser ‘‘Le Charme Discret de la Burgeoisie’’, de 72, onde voltam a aparecer expressamente, reelaborados, novamente meditados, os grandes temas dos anos surrealistas. Está de volta, em grande forma, a fúria mediterrânea. No contexto, outro título provocador é ‘‘La Voie Lactée’’ (A Via Láctea, 68), estampando a alienação filtrada pelo cristianismo através dos olhos de dois vagabundos-peregrinos a caminho de Compostela a discutir ortodoxias e heresias.
‘‘Tristana’’ (1970), da mesma forma que ‘‘Viridiana’’, merece ser classificado num grupo à parte, o dos ‘‘filmes espanhóis’’, juntamente com ‘‘Las Hurdes’’. Os três são os únicos da filmografia buñueliana rodados na Espanha, expressando o pensamento do autor sobre a realidade histórica, social, moral, religiosa e cultural do país natal. O reconhecimento oficial vem em 77 no Festival de San Sebastián, onde é apresentado o último filme de sua carreira, ‘‘Cet Obscure Objet du Désir’’ (Esse Obscuro Objeto do Desejo).
E por fim, mas não por último, a referência obrigatória ao mais famoso e um dos mais característicos do universo do realizador, o ícone-cult ‘‘Belle de Jour’’ (A Bela da Tarde, 67), Leão de Ouro em Veneza. Também participante vital no sistema de alienações. Aqui, além de Deus e religião, novamente a moral sexual castradora. Como sempre, Buñuel se recusa a julgar seus personagens para convidar o espectador a olhar além de distinções morais e a procurar - em companhia da belle Severine/Deneuve - um sentido de libertação.
De resto, a classificação da obra do cineasta em blocos - ‘‘surrealista’’, ‘‘mexicano’’, ‘‘francês’’ - funciona apenas com valor meramente didático. No conjunto, ela representa a mais rigorosa unidade, desenvolvendo-se organicamente a partir da explosão surrealista. Com efeito, Luis Buñuel permanece fiel ao surrealismo, cuja finalidade não é a obra de arte mas a instauração de uma nova atitude para mudar o homem e o mundo. Muitos anos depois de sua adesão ao surrealismo, e de ter se separado do grupo parisiense, Buñuel diria ao escritor mexicano Carlos Fuentes que o pensamento que seguia norteando sua vida aos 75 anos era o mesmo que o guiara aos 26. Segundo ele, é uma idéia de Engels, segundo a qual o artista descreve as relações sociais autênticas com o objetivo de destruir as idéias convencionais dessas relações, colocar em crise o otimismo do mundo burguês e obrigar o público a duvidar da perenidade da ordem estabelecida. E de acordo com o próprio Buñuel, o sentido último de seus filmes é reiterar, sempre e sempre, para que ninguém esqueça ou acredite no contrário, que não vivemos no melhor dos mundos.Há 100 anos nascia na Espanha um dos cineastas mais originais do século, o homem que viveu e criou sob o signo permanente do escândalo
ReproduçãoLuis Buñuel: cineasta levou às telas a estética do surrealismo e estreou no cinema como um rebeldeReproduçãoCena de ‘‘Um Cão Andaluz’’: primeira incursão de Buñuel no cinema em colaboração com Salvador Dalí. À direita, Luis Buñuel e Salvador Dalí: um encontro decisivoReproduçãoCatherine Deneuve em ‘‘Tristana’’ (à esquerda) e ‘‘A Bela da Tarde’’: o último é um marco na carreira de Buñuel

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