O céu é apenas um cenário
O céu é apenas um cenário
Chega às locadoras O Show de Truman - O Show da Vida, um dos melhores filmes produzidos em 1998
Celso Mattos
Poucos filmes saídos de Hollywood criticaram tão impiedosamente a televisão como O Show de Truman - O Show da Vida, uma das melhores produções de 1998. Com um roteiro inteligente e inovador, o filme tinha tudo para ganhar o Oscar, mas foi inexplicavelmente esnobado pela Academia. Apesar de ser um pesadelo kafkiano da era das telecomunicações, O Show de Truman não é apenas um filme-denúncia. É, sim, uma brilhante tragicomédia, com algumas doses de love story e recheado de diálogos oportunos e reflexivos.
Nas mãos de um diretor menos lúcido que Peter Weir, o filme poderia facilmente ter se tornado um manifesto contra a mídia, mas o cineasta deixa claro que somos nós, o público, que tornamos esses abusos televisivos possíveis. O roteiro escrito pelo neozelandês Andrew Niccol - que dirigiu a inteligente ficção científica Gataca - aborda um tema bastante atual: a história de um homem, Truman Burbank (Jim Carrey), cuja a vida é filmada e transmitida ao vivo pela TV durante 24 horas, sem que ele saiba.
Tudo o que cerca Truman, inclusive seus familiares e amigos, faz parte de uma diabólica encenação, dentro de um imenso mundo cenográfico, em que o próprio céu é só uma parede pintada e a chuva é fabricada. Tudo ao redor de Truman é uma mentira. Os carteiros são sorridentes, os vizinhos amigáveis e a cidade de Seahaven, um verdadeiro paraíso. O filme faz uma exacerbação do mundo harmonioso da classe média que o cinema e a televisão americanos sempre transmitiram ao telespectador. Chega um momento em que o próprio Truman começa a desconfiar de tanta perfeição, e tenta desvendar o que está por de trás daquilo.
É quando o filme se mostra mais inteligente. O único meio que Truman dispõe para testar a perfeição de sua vida é produzir a imperfeição, saindo do script que, sem saber, cumpria desde o nascimento. Peter Weir, que dirigiu o também excelente Sociedade dos Poetas Mortos, conduz o filme de forma enxuta, leve e visceralmente antielitista. Sem passar nenhuma mensagem, ele conta a história de maneira clara e direta, deixando que o telespectador tire suas próprias conclusões. Outra grande surpresa do filme é a brilhante atuação de Jim Carrey, que merecia estar entre os indicados ao Oscar de Melhor Ator, mas que foi ignorado pela Academia.
Indicado ao Oscar Melhor Ator Coadjuvante, Ed Harris interpreta Christof, o criador do programa O Show de Truman, uma espécie de Dr. Mabuse que controla o show de uma sala de edição. Em uma época em que o cinema norte-americano vive sofrendo de uma mesmice absoluta, O Show de Truman consegue dar um sopro de vida inteligente, mostrando que nem tudo está perdido em Hollywood. Lançamento da CIC Vídeo. Duração: 103 minutos.





