O Ceará do futuro
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de fevereiro de 2001
José Geraldo Couto Agência Folha 
Ceará, ano de 2020. Num convento em ruínas, numa paisagem pós-apocalíptica, um noviço de uma congregação místico-messiânica é assombrado por imagens do martírio de São Sebastião e lembranças de sua violação, quando criança, por um exu.
Assim se pode descrever, sucintamente, o segundo longa-metragem de José Araújo, As Tentações do Irmão Sebastião, que ele acaba de rodar no Ceará. Neste mês, Araújo vai a Roma para filmar durante dois dias as imagens que lhe faltam.
Quem viu o primeiro longa do diretor, o premiado O Sertão das Memórias, sabe que não deve esperar de As Tentações uma narrativa linear, enquadrada em algum gênero convencional do cinema.
Como o filme anterior, o novo também mistura ficção e documentário e lança mão de uma linguagem fortemente alegórica, recorrendo principalmente aos signos da religiosidade popular.
A linha dos dois filmes é parecida, só que agora eu elaboro mais essa linguagem de transcendentalismo no cinema (para usar a definição de Paul Schrader), em que as imagens são vistas como ícones religiosos, disse Araújo à reportagem.
Outra diferença importante é o tamanho da produção. Embora o orçamento total do novo filme não chegue a R$ 1,5 milhão, o cineasta pôde trabalhar em condições menos artesanais: filmou em cores, em 35 milímetros, e contou com atores profissionais.
Rodolfo Vaz, que interpreta o protagonista Sebastião, trabalhou no teatro com o grupo Galpão e com Gerald Thomas e estreou no cinema em Outras Estórias, de Pedro Bial. O elenco conta ainda com Majô de Castro, Marcos Miranda e Auri Porto.
Como no primeiro filme, a fotografia é de Antonio Luiz Mendes (Das Tripas Coração, Ópera do Malandro, Guerra de Canudos). Na música, Araújo pretende contar de novo com Naná Vasconcelos, autor da trilha de O Sertão das Memórias.
Em As Tentações do Irmão Sebastião, o diretor voltou a trabalhar intensamente com a população dos locais das filmagens (Fortaleza, Itapajé e Castanhão). Foram utilizados quase 1.200 figurantes, além de quatro grupos folclóricos cearenses.
A preocupação maior do cineasta foi a de dar uma visão autêntica da umbanda: Usei médiuns reais. Filmamos com a ajuda de um pai-de-santo.
Segundo Araújo, no Ceará a influência negra não é tão forte quanto a indígena, por isso a cultura local é mais marcada pela umbanda que pelo candomblé.
São Sebastião é uma presença marcante na umbanda, como comandante dos caboclos. Corresponde a Oxóssi. Achei interessante investigar como o mito de São Sebastião chegou a nós e foi transformado pelo nosso sentido da sexualidade.
Quando adolescente, José Araújo estudou para padre católico, mas sempre foi fascinado pela religião popular da umbanda, à qual dedicou o documentário Salve a Umbanda (1987).
Hoje, casado com uma indiana budista, acredita que no fundo todas as religiões são parecidas.
O Ocidente está redescobrindo a espiritualidade, mas já filtrada pelos EUA, diz. O Dalai Lama é adorado em Hollywood. Para Araújo, essa pasteurização da religião é análoga à padronização cultural: A gente está ficando muito parecido com Miami. Mesmo nas cidades do Nordeste, as áreas de classe média são todas modeladas em Miami.
O cineasta resiste a essa tendência uniformizadora enfatizando em seu filme os signos da cultura regional, como o maracatu, a banda de pífaros e a umbanda.
O trânsito de Araújo entre o regional e o mundial se reflete nos apoios que seu filme recebeu. Os principais investidores são regionais (Coelce, Telemar, Banco do Nordeste), mas apoiaram também o projeto a Secretaria de Cultura de Nova York, a Associação MonteCinemaVerità, de Locarno (Suíça) e a Guggenheim Foundation. A Videofilmes, do Rio, cedeu equipamentos.
O meu filme é ambientado num futuro em que acabou a civilização, e em que a busca de sobrevivência passa pelo misticismo sertanejo, resume José Araújo, um dos últimos artistas do mundo que ainda confere valor positivo a esse misticismo.


