O cavaleiro andante do cordel
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Não há rima mais rica para um poeta de cordel do que olhar para o céu e ver o mundo inteiro caber num pedaço de papel uma aventura quixotesca. Montado no cavalo, a lírica, ainda que extremamente simples, tem o galope irônico e cômico: o seu Rocinante. Vistoso corcel imaginário, que levará o cavaleiro andante a enfrentar moinhos de vento doravante.
Luiz Carlos Oliveira não é Quixote é sergipano. Já aí, a natureza, o destino de transformar as agruras de Cavaleiro da Triste Figura numa aventura. A sua própria riqueza. Montado em seu Rocinante, uma modesta moto 125cc, que longe de ser animal velho e cansado, é o cavalo de aço do cavaleiro da pressa, já que tem urgência de pôr num carderninho, um novo versinho para as coisas que encontra pelo caminho.
Aos 53 anos de idade, Oliveira já foi professor de escola rural, mas o giz virou poeira na estrada. Estou viajando há cinco anos. Passei pelo Pantanal, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, fazendo apresentações em colégios e universidades em troca de contribuições da platéia. Para o público, eu não leio nada. Vou só rimando de improviso, conta Oliveira, que de Nossa Senhora da Glória (SE), onde nasceu, caiu nos braços de Glória de Dourados (MS), capricho na história de um poeta da cidade que o adotou.
Com 28 livros de cordel publicados, Oliveira não se faz de rogado ao dizer que num só minuto consegue falar 266 palavras para ele, um recorde. O poeta, quando nasce, em sua mente já vem o dom de fazer poesia e transformar o escuro em um bonito claro dia, improvisa Oliveira, pai de dois filhos, um deles professor de Letras e outro de Geografia.
O artista que rima tudo na vida também escolhe bem as palavras para quando elas nos faltam, fazendo versos para a morte, gigante moinho de vento. Ah! Quando um dia eu passar desse mundo/Que agonia!/Vão me jogar no chão num túmulo, na terra fria/Onde os bons e os maus se juntam e não sabem o que vem/O rico, o pobre, o mole e o sabichão não sabem mais o que querem/É o silêncio profundo, o que saiu desta vida e partiu pro outro mundo/Somente a sua memória fica gravada na história/.
Sobre Lula, o presidente, Oliveira escreveu um livro inteirinho: ...Não foi Lampião/Zabele e Zé Rufino/Mas venceu grandes barreiras/Desde os tempos de menino/.
No repente, ele não rejeita uma disputa amistosa. Homem, mulher, quem quer que seja, Oliveira faz troça. Cheguei no Rio Grande do Sul, me disseram que tinha uma moça muito boa no repente. Disse: você faça uma contra mim, que faço outra contra ti: Mocinha não me faça perder a paciência/Que posso brigar com você/As suas pernas cairão em Campo Grande/Os seus braços vão parar lá no meu Norte. A cabeça desaba na Indochina e os ossos no Japão/O coração vai para a Irlanda, isso é mole/E dos pulmões que tu tens eu faço um fole/.
Repente e literatura de cordel, Oliveira afirma que ninguém aprende e que, ainda na infância, leu mais de 100 livros do gênero, mas foi uma desilusão amorosa a escola que lhe ensinou a arte de ser um poeta em verso e prosa.


