As interpretações mais usuais costumam ler ‘‘O Castelo’’ (Companhia das Letras, 488 págs., R$ 35,00), o mais misterioso livro de Franz Kafka, como um libelo contra a opressão, a crueldade da ordem burocrática e a estagnação. Uma alegoria da vida do homem comum no moderno mundo administrativo, em que as identidades se tornam etiquetas impessoais, os fatos são reduzidos a números e as vozes ficam aprisionadas em documentos. Esses mesmos intérpretes descrevem Kafka, também, como um homem confuso, que se relacionava mal com as mulheres, fugia do mundo que o cercava e que cedia facilmente aos instintos de autodestruição, clichês que, de fato, nada mais fazem que arranhar a pele do homem e escritor que ele foi.
‘‘O Castelo’’, que chega aos leitores brasileiros em tradução inédita de Modesto Carone, foi publicado postumamente, em dezembro de 1926, por iniciativa de Max Brod; e seu final abrupto (uma frase fica pelo meio) é até hoje, ele mesmo, um mistério. Kafka o escreveu em apenas seis meses, no ano de 1922. Morreu em 1924, um mês antes de completar 41 anos.
Essa visão política do livro foi certamente estimulada pela ascensão do nazismo, pelos estragos que o autoritarismo produziu no planeta ao longo do século e pelo crescimento da intolerância. Hoje, contudo, já temos alguma distância para perceber que ‘‘O Castelo’’ é bem mais que isso, é muito mais que um livro sobre o poder e como o homem o sofre, embora essa maneira de lê-lo guarde, também, uma razoável parte da verdade.
O romance relata a aventura de K., o agrimensor que, contratado pelo conde Westwest, o senhor do castelo, chega a uma pequena vila para prestar serviços profissionais. Acontece que ninguém na vila precisa de um agrimensor. Levado até lá por um erro burocrático (sua contratação parece ser, na verdade, só um resquício de uma antiga necessidade que não mais existe), K. ainda assim insiste em ocupar o papel que lhe foi destinado, e para isso, alimenta o desejo de entrevistar-se com o conde.
O castelo, porém, é um lugar inacessível, seus personagens raramente se deixam entrever, as ordens que dele emanam são incompreensíveis, ou irrealizáveis, sua existência parece, frequentemente, uma ilusão. Mas K., porque não tem outro trabalho e ainda porque se apaixona por Frieda, a filha da dona do albergue, não desiste. Há nessa insistência de K. um empenho em compreender aquilo que lhe escapa, uma luta contra a parcialidade e a incompletude das coisas - e aqui o romance se aproxima de ‘‘O Processo’’ e, afora isso, do grande tema de Kafka que é o desconhecimento, não por ignorância, ou má-fé, ou desleixo, mas porque essa impossibilidade de saber é o fundamento da condição humana.
Por isso, ‘‘O Castelo’’ é também, e sobretudo, um livro sobre a solidão - sentimento que define a distância, por vezes abissal, que separa o homem de seu mundo. Max Brod, o amigo e testamenteiro de Kafka que salvou sua obra, chegou a dizer que ‘‘O Castelo’’ forma, ao lado de ‘‘A Metamorfose’’ e de ‘‘O Processo’’, uma ‘‘trilogia da solidão’’, designação que parece bastante adequada ainda que, mais uma vez, possa talhar o livro pelo meio.
Ele é ainda, como mostra Modesto Carone em seu rigoroso posfácio um livro sobre o medo - medo e solidão, aliás, nada mais sendo que duas faces de uma mesma condição, já que o medo dificilmente se separa do desamparo. Mais precisamente, um romance sobre um ‘‘temor sem explicação’’, que teria marcado, desde cedo, a vida de Kafka, homem sensível não só às agressões do mundo, mas também às fissuras que, sem um autor declarado, compõem a vida humana.
‘‘O Castelo’’ é, num certo sentido e ainda, um livro sobre a impotência de K. diante de coisas, que estão sempre além de sua compreensão - estado, é bom insistir, que não é um privilégio seu, mas é experimentado, seja de que forma for, por todos os homens.
Herman Hesse, o autor de ‘‘O Jogo das Contas de Vidro’’, disse ainda que ‘‘O Castelo’’ é ‘‘o mais belo e o mais misterioso dos romances de Kafka’’. Se não for o mais belo, discussão que se perde no lodaçal dos gostos pessoais, certamente é o mais misterioso, pois nele, mais que a perplexidade de alguém que se vê transformado num inseto, ou do sujeito que se vê julgado por um crime que desconhece, há uma ignorância ainda mais radical: K., o narrador, não sabe sequer o que se passa com ele ou contra ele - se é que algo de fato se passa. Em ‘‘O Processo’’, Josef K. sabe, ao menos, que está sendo julgado, ainda que não saiba por que; em ‘‘A Metamorfose’’, Gregório Samsa sabe, tem certeza de que se tornou uma barata, ainda que essa convicção não lhe baste para escapar. Mas em ‘‘O Castelo’’, K. tem o acesso vedado até mesmo ao nome do mal que o abate, se é que algo o abate.
O romance é, na verdade, um relato que margeia os limites da mente humana, realçando os estragos que o desconhecimento, que a visão falhada, que as imagens incompletas operam na vida de qualquer sujeito, seja ele quem for. É também um livro sobre o vazio - de explicações, de consequências, de sentido, ausências em que K. se vê perdido e apesar das quais, ele sabe, precisa continuar a viver - tanto que não deseja ir embora da aldeia e ali se detém, num vaivém compulsivo entre a vila e as imediações do castelo. Sendo assim, é também um romance sobre a obsessão, sentimento puro, já se objeto, inútil, e que, apesar disso, continua a operar com a mesma força.

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