O caso de um filme apenas curioso
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
''Benjamin Button'' buscou inspiração em uma ''short story'' de F. Scott Fitzgferald, considerada das menos expressivas do autor de ''Gatsby'' e ''Suave é a Noite''. O roteirista Eric Roth, que ganhou um Oscar adaptando a novela ''Forrest Gump'', de Herman Bloom, tomou aqui apenas a premissa central do texto - um homem nasce velho, octogenário, e vai rejuvenescendo mais e mais à medida em que avança pela vida em direção à morte.
A vantagem que Roth teve com ''Gump'' foi a de que ele pôde levar seu herói a passear através do tempo por qualquer momento da história americana e mundial. Com a narrativa de Fitzgerald, reduzida a cerca de vinte e poucas páginas, havia muito a preencher. E o que está em ''Button'' é com certeza um trabalho insano do roteirista, alguém que já foi capaz de criar entrechos brilhantes para filmes como ''Os Infiltrados''.
O fator complicador é que Benjamin Button (Brad Pitt) é basicamente o mesmo, do principio ao fim. Alguém que mais e mais vai se tornando monótono e pouco interessante. Chamá-lo de protagonista passivo não parece suficiente. O filme o define quase que exclusivamente em termos de seu processo de envelhecimento. Ele não tem ambições, interesses, nenhuma posição a não ser aquela de outsider, e nenhum desejo. A não ser por Daisy (Cate Blanchett).
Benjamin deveria ser uma pessoa quieta e triste, já que ele percebe melhor do que ninguém a passagem do tempo. Sua aflição o liga diretamente à tristeza do universo, e o coloca distanciado da humanidade. Infelizmente, esta configuração também coloca o espectador apartado de outros personagens. O resultado é um espetáculo frio, uma série de interlúdios meio desconexos oferecidos à distância. A extensa duração (167 minutos) resulta desprovida de dramática ou temática justificativa.
E no decorrer deste longo itinerário, uma suspeita recorrente. Se você está fazendo um filme desenhado para ser uma perfeita máquina de ganhar Oscar, com certeza o modelo é algo muito semelhante a ''Benjamin Button'': um drama de época(s), bons truques de direção de arte, elenco prestigioso, sensível utilização de efeitos digitais a serviço principalmente de maquiagem (esta estatueta pelo menos não escapa...), habilidade.
Não é improvável que muitos espectadores tenham se afinado com a história de Button, especialmente cotejando seus próprios medos e esperanças com os do personagem. Mas o recado claro é muito mais simplista, e já foi melhor dado em filmes bem menos pretensiosos: o tempo é cruel, a imortalidade não existe e trata-se de viver aqui e agora, já e da melhor maneira possível antes que seja tarde demais e sem se apegar como um náufrago à noção de que os melhores anos de nossas vidas ficaram para trás. (C.E.L.J.)


