ilustraçãoDouglas Mayer‘‘Choca-me fazer parte de um país cujo símbolo é o rabo
de nossas mulheres’’Hoje é Carnaval. Estou longe, em Nova York, longe da ‘‘zona’’ colorida que se instala no País mas, como hoje é Carnaval e ando numa onda nostálgica, sou arremessado para 1950 de novo, no colo de meu pai, na avenida Rio Branco, vendo passar as sociedades carnavalescas. Elas passavam justamente hoje, na terça-feira gorda. Eram grande carros alegóricos cheios de rodas moventes, de estátuas de papel e massa, toscas e épicas com grande rostos, estrelas, engrenagens brilhantes, sóis, luas, cobertos de mulheres provocantes. As ‘‘sociedades’’ que competiam tinham nomes meio góticos como ‘‘Pierrots da Caverna’’, ‘‘Tenentes do Diabo’’, ‘‘Fenianos’’, e meu pai me levava pela mão e eu olhava um imenso carro (seria grande mesmo ou era a escalada de minha infância?) que era um despotismo de cachos de banana, com uma lindíssima mulher morena e nua no alto. Os pais de família, as mães de família (todo mundo era de família...) diziam: ‘‘Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pag㒒, Já contei isso mas repito. Elvira Pagã era apenas uma vedete mas, naquele ano remoto, ela queria ‘‘provar’’ alguma coisa. Algumas mulheres como ela (Luz del Fuego e outras) transcediam o palco e viraram o símbolo vivo de alguma loucura no ar, de algum desejo reprimido no coração das famílias. Eu olhava em volta e via nas senhoras distintas a inveja infinita e escandalizada e via no meu pai um olhar que eu não conhecia, voltado para a Elvira Pagã (que nome anticristão e nu!...). Havia naquela nudez uma coragem que não vejo nos tempos libertinos de agora. Hoje, as mulheres das escolas de samba não têm mais o que despir. Elvira Pagã foi uma precursora de todas elas. Hoje, elas travam uma competição frenética de coxas, bundas e seios. Mas, que mostrarão no futuro? Que querem elas provar do alto de sua imensa euforia? Querem nos levar para o fundo do mar como sereias? Querem provar que o sexo sem limites poderá resolver os problemas do Brasil? São políticas ou messalinas? Querem provar que nossas vidas são escuras e mesquinhas? Querem que abandonemos nossas esposas, nossos lares? Ou querem a imortalidade nua?
Há qualquer coisa de agônico e lancinante nestas mulheres nuas. Rosnarão alguns: ‘‘Você está é com inveja. Está querendo cair na gandaia e não pode, que a tua mulher não deixa...’’ talvez, talvez... mas não é só isso. As mulheres alegóricas de hoje se oferecem numa violência de curvas e rebolados, numa ostensiva volúpia, num excesso de ofertas que inviabilizam qualquer tesão. Sobra-nos uma tesão sem rumo, um pênis de helicóptero, num vôo de pássaro sobre os rebolados. Tanta é a oferta, que cai a demanda. Há uma deflação do desejo que torna impossível a satisfação. Há uma certa angústia nesta oferta panorâmica de sexo. Lembro-me do marquês de Sade que, na ‘‘Filosofia do Boudoir’’, gritava numa orgia, com êxtase saciado: ‘‘Organizem-me uma paisagem de nádegas!’’
A ruptura total de todas as barreiras tirou da nudez seu traço de liberdade. Há algo mais que alegria naqueles bacanais aéreos no altos dos carros alegóricos. Tanta é a liberdade que só podemos pensar em alguma forma de ... moral. É isso. Choca-me (ouso dizê-lo) fazer parte de um país cujo símbolo é o rabo das nossas mulheres. Choca-me ver nossas filhas esfregando o sexo nas lentes da TV. Que é isso? É o ato sexual da globalização? Não há francesas, americanas ou alemãs fazendo este elogio infinito do desejo, inclusive mentiroso, porque ninguém é tão sexy assim. Melhor dizendo - meu choque não é moral; é político. Nós viramos uma espécie de curiosa Sodoma subdesenvolvida.
Exportamos travestis e importamos turistas para se repastarem em nossas mulatas e meninas.
Havia alguma coisa profunda no antigo Carnaval brasileiro que se perdeu. Por isso, o último grande momento da arte brasileira maior foi quando o Joãsinho Trinta soltou os ratos e urubus na rua, com mendigos e o Cristo embalsamado no lixo.
Foi um momento de genialidade crítica, de uma perfomance virando a ilusão ao avesso. Se antes ele dizia que ‘‘o povo quer é luxo’’, neste dia ele se autoparodiou, fazendo a realidade desabar na avenida. A alegria excessiva que as mulheres e os homens ostentam vem sem preparação, explode de repente, como um parênteses dentro do ano morno do País. Que liberdade é essa, que ninguém tem durante o ano? Que alegria desmesurada é essa? Estas mulheres nuas de hoje, estes impossíveis objetos do desejo, não estão fazendo nenhum manifesto político, como fizeram inconscientemente Elvira Pagã e Luz del Fuego, para o meu pai e meus olhos deslumbrados, ‘‘de volta ao futuro’’, em 1950. O Carnaval desta época era o resultado de uma alegria que ia crescendo pouco a pouco.
Alegria que começava a se formar com as cigarras de dezembro, crescia com os ‘‘flamboyants’’ e o céu azul durante os meses do verão, ressoava nas marchinhas e sambas decorados em janeiro, se antevia nas avenidas enfeitadas e acontecia de repente em fevereiro, numa debandada de perfumes e serpentinas. Havia uma alegria tosca, porém, ‘‘comemorável’’ no País. Antes, tínhamos a sensação de que se ‘‘chegava’’ a um Carnaval, que o Carnaval culminava alguma coisa. Hoje o Carnaval chega pronto. Era um Carnaval real; hoje é virtual.
O Carnaval era uma revelação; hoje ele esconde qualquer coisa. Falta um certo minimalismo no Carnaval; perdeu-se a delicadeza do detalhe. Somos esmagados por uma avalanche de imagens e corpos nus e vemos com espanto o desconforto das multidões nos blocos. Há qualquer coisa de calamidade pública no Carnaval de rua. Há algo de desesperado em certas alegrias.
Por isso, me lembro como era solitária e forte a nudez de Elvira Pagã, como um manifesto, que ia na proa do grande navio de papelão, cheio de luzes e música, se oferecendo como um pecado público, singrando entre as multidões de classe média, em direção a hoje.

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